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O trono de William

Sebastião Nery

Colunista - Nacional

terça-feira, 14 de novembro 2017

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Velhinho miúdo de cabeça grande e longos cabelos e bigodes brancos, ele não nasceu em Estrasburgo. Nasceu perto, do outro lado do Reno, na Alemanha, onde o Meno se encontra com o Reno, em Mainz, que portugueses, espanhóis, italianos chamam de Moguncia. Nasceu em 1400 e também não morreu em Estrasburgo, mas na sua Mainz, em 1468.

Mas é em Estrasburgo, à beira do Reno, na maravilhosa cidade, que já foi romana, germânica, alsaciana, francesa, alemã, de novo francesa e ocupada quando Hitler ocupou a França, que está seu trono, todo em bronze, no meio da praça, sobre um pedestal, segurando uma página de sua primeira Bíblia:

– “Et la lumière fut”. “E a luz se fez”.
E Gutemberg iluminou para sempre a humanidade, criando a imprensa.
E, como geralmente a imprensa, sempre perseguido. Viveu correndo entre Mainz (Moguncia) e Estrasburgo. Operário modesto, empregado nos fundos do palácio do arcebispo, começou a fazer pesquisas, tomou dinheiro emprestado, que não pagou, e por isso foi perseguido. Um dia inventou uma máquina tosca que acabou derrubando todo o império da Igreja Medieval.

É arrepiante entrar na pequena oficina, lá da sua Mainz (Moguncia), em que ele pesquisou 25 anos seguidos, para afinal, em 1432, 500 anos antes de eu nascer, editar pela primeira vez uma página impressa. Nos mínimos detalhes, foi criando um a um os tipos gráficos, fazendo a composição à mão, inventando a prensa de imprimir. Ameaçado por motivos políticos, fugiu de Estrasburgo e trabalhou como ourives.

De volta a Mainz em 1448, em 1455 terminava a primeira edição de um livro: a Bíblia, que por isso se chama a “Bíblia de Moguncia”. Apesar disso, de escolher a Bíblia para primeira obra impressa, acabou novamente perseguido. Tomaram-lhe os exemplares impressos, expulsaram-no do palácio, prenderam-no, alegando que não havia pago as dívidas.

Na verdade, a nobreza e o clero medieval sabiam que ali estava o fim de seu Império de mil anos. Gutemberg, o velhinho miúdo de cabeça grande, tinha dado à humanidade seu melhor pedaço de pão: a palavra impressa, onde ela poderia alimentar a liberdade de pensar e de existir.
Seu monumento é de 1840, quatro séculos depois de sua invenção. Numa cidade bem própria: além de belo e poderoso centro cultural, Estrasburgo é a capital política da Europa, sede do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu. Em Bruxelas, funciona o Poder Executivo da União Europeia. Mas as decisões políticas, coletivas, são tomadas em Estrasburgo.

A França teve razão de lutar séculos por ela, disputando-a com a Alemanha. Estrasburgo é contemporânea da humanidade. Desde a Idade de Bronze já lá morava uma comunidade de pescadores. Conquistada pelos romanos, que a chamaram de “Argentoratum” (“cidade da prata”), no ano 12 antes de Cristo, logo virou posto militar para vigiar as tribos germânicas.
Conta a historiadora Annamaria Giusti:

– “Na Idade Média, a maior autoridade eram os bispos. Em 1262, foi liberada da tutela deles. Em 1300, construíram uma ponte sobre o Reno, para negociar madeira, vinho e algodão. No século 15, transformou-se numa República Livre, governada por um Conselho de Representantes. E logo aderiu à Reforma Protestante, virou polo cultural com a presença de pensadores, pregadores e perseguidos políticos da França, Itália, Suíça, etc”.
Toda minha solidariedade ao exemplar William Waack, também vítima do atraso como Gutemberg foi.

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