domingo, 18 de novembro de 2018.
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Politicamente correto

Sávio Bittencourt

Colunista - + CADERNOS

sexta-feira, 07 de setembro 2018

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Generalizações mal feitas costumam gerar prejuízos e injustiças. Mas as generalizações que são encampadas como verdades sociais têm papel mais perverso: fundam preconceitos, inventam certezas protocolares e, quando aproveitadas ideologicamente, assassinam o debate democrático. Por anos afora, o senso comum tem sido responsável pelas maiores barbaridades da história, sobretudo quando manipulado por meio da propaganda e da imprensa. Rendidas ao dever de construir mitos e criar versões falsas com aspecto de absoluta veracidade, estas duas senhoras devem muitas satisfações à humanidade.

Assim, o nazismo, o stanilismo e as recentes edições do populismo – sobretudo em nosso continente – devem parte de sua viabilidade a adesões voluntárias e ufanistas de integrantes da imprensa e da cultura. A fabricação de versões acabou por se tornar uma arma de conquista e manutenção do poder, que modernamente ganhou uma forma mais sofisticada de aparição: o “politicamente correto”.

O “politicamente correto” é uma doutrina criada para adestrar o cidadão, convencendo-o de que a única forma correta de se pensar, agir e falar é obedecer dogmas construídos em altares de maior conhecimento, uniformizando os entendimentos sobre as questões sociais. Cria-se uma regra moral que permite duas coisas: o estabelecimento de um padrão único de pensamento e a imposição de seu conteúdo por uma dita vanguarda supostamente engajada. Tal criação não tem apenas repercussão na nomenclatura que envolve a designação dos seres e dos processos sociais, mas pretende também impor para o coletivo uma visão muito particular do que seja ético.

Contudo, o “politicamente correto” tem sempre a justificativa de ser a tentativa de superação de preconceitos e problemas sociais realmente graves e que necessitam de enfrentamento. Daí a popularidade na esfera dos que militam na órbita das causas sociais de seu dialeto: vão se mudando os termos e as designações, como exemplo contundente de acréscimo de respeito social aos que dele não desfrutavam em abundância. É como dizia um antigo Ministro, que de tão antigo me esqueci o nome, “muda-se o nome do sabão para ver se ele faz mais espuma”.

Outro dia a Presidente da República estava em um evento para pessoas com deficiência e, inadvertidamente, as qualificou como “portadores de deficiência”, recebendo em função desta “gafe”, uma incômoda vaia. O preço que se paga pela adesão à doutrina histérica do politicamente correto é se tornar refém dele. Em todos os campos há uma terminologia “progressista”, seja lá o que isso signifique, que cria uma grife linguística que mostra preparo e erudição do interlocutor, mesmo que ele seja uma mula (sem querer ofender os irmãos de criação muares, por favor).

E a vida segue: enquanto os direitos são injustamente postergados em todas as instâncias, os entendidos de cada área se exibem cada vez mais afetados, criando termos que vão sendo incorporados ao diálogo das vanguardas estéreis, que nada produzem de novo e consistente para vencer as injustiças, mas capricham em seu mergulho olímpico na piscina rasinha das crianças.

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