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Tiradentes, o herói do feriado de hoje

João Soares Neto

Colunista - + SUPLEMENTOS

sexta-feira, 21 de abril 2017

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“Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constitui chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde”. Parte da sentença de morte contra Tiradentes.
Que continua: “Mando que com este baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que a cabeça separada do corpo seja levada à Vila Rica…” (Boletim da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no. 53, em 18.04.2008).
Em 1776 aconteceu a Independência da América, jovens brasileiros, filhos de abastados nacionais, estudavam na Europa, mormente em Portugal. Eles resolveram, seguindo a senda iluminista, aspergir a ideia da libertação da Coroa, através de cartas e de palavras candentes, quando das férias ou dos seus retornos.
Anos depois, alvitrou-se, em Vila Rica (hoje, Ouro Preto), Capitania das Minas Gerais, fazer um movimento social libertário, juntando parte do clero, da intelectualidade e da burguesia. A esse movimento, a dita “Inconfidência Mineira”, aderiu Joaquim José da Silva Xavier, alferes pouco lido, de poucas posses, também protético, profissão aprendida em família, que recebera a alcunha de “Tira Dentes”, o Tiradentes.
Esse movimento sequer prosperou, ficando morno. Joaquim era um boquirroto, mas também gostava de ouvir. Soube haver cheiro de traição no ar. Estava com problemas afetivos sérios, apesar de nunca haver casado. Largou o movimento, a corporação Dragões de Minas e fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo assim, em 1789, Joaquim Silvério dos Reis, falido e ciente do favor à Coroa, fez a denúncia sobre a possível e nunca realizada insurreição.

Dou a palavra a Otávio Frias Filho em artigo nominado de “Ainda que tardia”, publicado na Folha de São Paulo, em 26 de fevereiro passado, escrevendo sobre o filme “Joaquim”, lançado, ontem, em circuito nacional. Diz Frias: “Não existe história mais recoberta de ferrugem verde-amarela, depositada em tantas décadas de reiteração escolar, que a de Tiradentes. O frescor acre que exala de “Joaquim”, exibido, na semana passada, no Festival de Berlim, decerto tem a ver com a opção do diretor Marcelo Gomes… Quando começa a acontecer o que aprendemos na escola, o filme termina”.
Como se sabe, mesmo tendo sido o único morto, por conta da Inconfidência, a mando da Rainha Dona Maria I, cognominada a “Rainha Louca”, Tiradentes ou Joaquim, ficou no limbo da história até o albor do movimento republicano, em 1870.

Procurava-se um herói nacional. Consta que usaram o Tiradentes. É a versão tida como requentada nos fornos da “consentida” República. Não há na Historiografia do tempo Imperial menção alguma à tal Inconfidência. Frias, no artigo já referido, diz: “Em seu livro sobre o personagem (Tiradentes: O

Corpo do Herói, Martins Fontes), a historiadora Maria Alice Millet demonstra como a sua mitologia foi elaborada…”.
O fato é que Tiradentes, três anos preso, foi degolado em 21 de abril de 1792 e os autos da sua condenação duraram 18 horas de alocução. Ora, se ele fosse tão desimportante assim porque o Império gastaria tantas laudas com ele?

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