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Transiberiana, o trem do sonho

Sebastião Nery

Colunista - Nacional

terça-feira, 10 de julho 2018

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Há sempre um trem de ferro na infância de cada um. Mas sempre houve um na infância de todos: a Transiberiana. Cantada em prosa e verso, cenário de romances, história de filmes, mas, sobretudo mistério e aventura nos contos infantis, a Transiberiana é um patrimônio da humanidade.
E agora ela está aqui, ao meu lado, com seus trilhos nevados, sua respiração profunda, ofegante, suspirosa, seu cheiro de sonho, invadindo a floresta, mergulhando montanhas, saltando rios, cortando a Ásia de ponta a ponta, de Moscou a Vladivostock, 11 mil quilômetros, 10 horas de fusos horários diferentes, uma semana inteira, dia e noite, a mais de 80 quilômetros por hora, ligando dois mundos.

1 – “Quem domina a distância, domina a Sibéria”, dizem os siberianos. Eles sabem que, antigamente, as nações eram ocupadas por tanques. Hoje, por trilhos. Por isso, da Transiberiana acaba de nascer uma nova estrada, monumental como ela, outra epopeia da engenharia, cortando a Sibéria mais pelo centro (a Transiberiana é mais pelo Sul), dentro da floresta: a Baikal-Amour, ligando o Lago Baikal, no coração da Sibéria Oriental, ao Pacífico, na região do rio Amour.

2 – A BAM, como eles chamam, 3.200 quilômetros, toda eletrificada, duas longas bitolas, correndo a 120 quilômetros por hora, carregando três mil toneladas, usando locomotivas e vagões especialmente construídos para ela, e controlada por um sistema de televisão. Só a infraestrutura na região, preparando a construção, custou 15 bilhões de dólares, mais do que foi gasto na própria estrada e quase um quarto do orçamento nacional anual de um país como a França.

3 – Em cinco anos de construção, movimentou 270 milhões de metros cúbicos de terreno, ou seja, mais de cem pirâmides de Qheops. Tem mais de 1.500 pontes, mais de 10 túneis, e quase dois mil quilômetros de estradas paralelas, em um raio de 1.600 quilômetros, Cem mil homens, com uma idade média de 23/25 anos, a fizeram.
4 – Nas montanhas que a BAM atravessa, são frequentes as avalanches de gelo. Em certas regiões por onde passa, há até 2 mil tremores de terra por ano.
5 – Aliás, como tudo na Sibéria é imenso, por causa de seu tamanho, também nos outros transportes os números são sempre grandiosos: 10 mil quilômetros de rios navegáveis, ligando, por exemplo, a Sibéria a Londres. Navios de três mil toneladas sobem e descem os rios Enissei e Angara, unindo as fronteiras sul e norte da Sibéria, ao longo de 3.200 quilômetros.
6 – Em 1978, o transporte de passageiros em todo o país foi assim: estradas de rodagem (40.365 milhões), estradas de ferro (3 bilhões), fluvial (144 milhões), aéreo (97,8 milhões), marítimo (50,3milhões).

7 – Também em 1978, o transporte de mercadorias no país inteiro foi assim: estradas de ferro (3.429 milhões de toneladas por quilômetro), oleodutos e gasodutos (1.049 milhões de ton/km), marítimo (815.700 mil ton/km, fluvial (243.500 mil ton/km), aéreo (2.086 mil ton/km).
8 – Esses números mostram que os países de grandes extensões como a Russia, os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, etc., não podem basear seu transporte sobre rodovias, sobretudo depois da crise do petróleo. É preciso articular estradas de ferro, rios, mares, rodovias e aviões. Aqui, na Sibéria, se diz: “automóvel, só até 400 quilômetros.”
Vou anotando esses números enquanto a Transiberiana, longa e esguia, mergulha floresta adentro, no infinito branco da neve.
Como nas histórias e nos sonhos da infância.

 

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