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UM HOMEM DO CONGRESSO

Sebastião Nery

Nacional

terça-feira, 13 de dezembro 2016

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RIO – Afonso Arinos, que passou a vida entre a Câmara e o Senado, disse que ele foi “o maior parlamentar brasileiro desde 1930”.
Nestes tempos de Congresso apequenado, o pais devia ter celebrado com mais calor o centenário de Tarsílo Vieira de Melo. Foi um homem do Legislativo por um quarto de século. Em 1945, com 32 anos, já se elegia para a Assembleia Constituinte. Em 1947, secretario de Educação e Saúde dos governos Otavio Mangabeira e Regis Pacheco. Eleito Juscelino Presidente, líder da Maioria na Câmara, comandando as batalhas para livra-lo das tentativas de golpes da UDN.
Homem de esquerda no PSD, era o secretário-geral da LEN (Liga de Emancipação Nacional).Em 1964, o golpe militar o encontrou no comando da oposição, aliado a JK, Jango e Lacerda na Frente Ampla pela volta da democracia. Dissolvidos os partidos, ajuda a fundar o MDB com Ulysses Guimarães e assume a liderança na Câmara.
Na véspera de morrer suspeitamente atropelado, lamentava:
– Não sei bem o que está acontecendo com o Brasil. Mas é cada dia menor o número dos que se dispõem a defender a liberdade e a democracia Veja a História do Brasil. Em todas as épocas, quaisquer que fossem as circunstâncias, havia sempre um grupo de homes mais velhos, mais experimentados, jogando lideranças e às vezes a própria liberdade exatamente para defender a liberdade.
E passou a me citar nomes, de José Bonifácio a Joaquim Nabuco, de Ruy Barbosa a João Mangabeira:
– Hoje, parece que os mais velhos estão se aposentando cedo demais da liberdade, da democracia, da luta política. A UDN enrolou o lenço branco e escondeu lá no fundo do bolso. Por isso fico feliz, toda manhã, quando leio o Hélio Fernandes, o Castelo Branco, você, outros, brigando a briga diária de defender a liberdade e a democracia no Brasil. Você me conhece e sabe que não tenho mais ambições políticas, a chamada vida pública me deu o que eu podia querer de experiência e qualquer alimento para a vaidade. Um mandato de deputado, agora, para mim, pode ser até um estorvo para minha vida pessoal. Mesmo assim, vou para a Bahia buscar de novo o mandato. Não quero continuar voltando para casa, todo dia, com a sensação de que também eu me aposentei da fé na democracia.
Vieira de Melo foi isso. Um profissional da democracia. Os homens de sua geração, os jornalistas mais antigos podem dar depoimento ainda melhor. De 1945, quando a Bahia o mandou para a Câmara Federal, até 1967, quando perdeu as eleições para o Senado pelo MDB por alguns mil votos, Vieira foi sempre um plantonista da democracia.
Quando lhe levaram provas de que ele havia ganho as eleições de 67 e tinha sido fraudado pelo mapismo eleitoral, negou-se a denunciar:
– Uma denuncia desse tipo pode acabar ajudando aqueles que querem liquidar de uma vez com o voto popular. Não a farei. Não a farei também porque o Aloísio de Carvalho é um democrata e não tem nada com isso.
Dias depois, foi misteriosamente atropelado em Copacabana, na porta de sua casa. Foi um tipo de homem que está acabando no Congresso. Mas existiu.

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