quarta-feira, 19 de setembro de 2018.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

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Um rio de recordações

João Soares Neto

Colunista - + SUPLEMENTOS

sexta-feira, 07 de setembro 2018

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Estou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afeiçoei. Cheguei ao “Santos Dumont” e não havia ninguém esperando. O telegrama atrasara e a tia não estava lá. Táxi, mala na mão, fui ter ao Hotel Mem de Sá, Lapa, por indicação do motorista. Defronte, o Instituto Médico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as referências da localização do hotel e me aventurei pelas vizinhanças. Não sabia que estava em área perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, moças da noite, circulei e recolhi-me. Porta calçada por um móvel.

Depois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os ônibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atlântica não havia sido alargada e o bondinho do Pão de Açúcar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram binóculos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de pé, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os prédios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opulência do Iate Clube do Rio de Janeiro.

Era a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, já profissional, até a cogitar morar por lá nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a família me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza – Rio uma constante ponte aérea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Março e México e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim não é mais.

Hoje, décadas depois, ainda resta sentimento de pertença, essa liga invisível e indizível, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a estátua de Carlos Drummond de Andrade (“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura “Ratos di Versos” e aí me quedei a ouvir poesias, divagações filosóficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gamão, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos pés da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema.
E me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer – que não usava o Soares do seu pai, embora assim registrado – descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal – sem atentar que era grande não em estatura, mas por sua obra universal – e chegar ao seu escritório na cobertura de um velho prédio com varandas em semi-círculo, a metros dali.

Faço-me passadista, e isso não fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, não sei por que, vem a lembrança da morte do José Wilker, na madrugada do sábado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre Cícero presenteou ao Brasil. A mim, não vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais não tão comerciais, fazia críticas de filmes com aquela voz performática que dele se apoderou. Pois é, sexta passada, fazia planos para o aniversário da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigmática.

 

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