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Santiago Nazarian lança novo romance, “Fé no Inferno”

sexta-feira, 03 de julho 2020

O escritor Santiago Nazarian lançou, pela Editora Companhia das Letras, a versão digital e impressa de seu novo livro, intitulado “Fé no Inferno”. Santiago é autor de diversos romances, entre eles “Neve Negra”, “Biofobia”, além do celebrado “Mastigando Humanos”, quando ganhou projeção nacional, sendo entrevistado por Jô Soares e outros talk shows da TV, servindo também de inspiração para vários artistas – como o cantor cearense Daniel Peixoto, que deu o mesmo nome para seu primeiro disco solo. 

Todas as obras do escritor mesclam questões atemporais da literatura existencialista com cultura pop, humor negro e horror. Santiago Nazarian tem obras publicadas em vários países da América Latina e Europa e direitos vendidos para cinema e teatro, além de ser criador e roteirista de “Passionais”, série da Globosat. Em 2003 ganhou o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura com seu romance de estreia. Em 2007, foi eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro. Além de escritor, é tradutor, roteirista e colabora em diversos periódicos.

Em seu novo romance, Santiago mescla histórias do genocídio armênio a uma narrativa situada no Brasil contemporâneo para abordar questões de classe, etnia, gênero e orientação sexual. “Fé no Inferno” mistura o Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora, e o país em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para Domingos, um senhor armênio, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, e na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar de que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo. 

Felipe Palhano, do Jornal O Estado, entrevistou o escritor Santiago Nazarian que falou sobre seu novo livro “Fé no Inferno” e outros assuntos.

O ESTADO – Como surgiu a inspiração para o seu novo romance e que tipo de pesquisa ou processo de criação você fez para produzi-lo?

SANTIAGO NAZARIAN – Eu sou de família armênia, e há muito tempo queria tratar do Genocídio Armênio, obviamente. Mas não me considerava capaz. Eu precisei ir para lá, depois pesquisar sobre o tema, e contar com a ajuda de especialistas para tratar dessa história. Minha viagem foi basicamente turística, mas viajei muito pelo país, fui ao Museu do Genocídio, e fiquei com muito das imagens, das paisagens. De volta aqui, li dezenas de relatos de sobreviventes do genocídio, que foram minha
maior base sobre o tema. De ficção não li quase nada – na verdade, a ficção que mais
influencia o livro é sobre o folclore armênio.

O ESTADO – Lançar “Fé no Inferno”, durante a pandemia de Covid-19 está sendo um desafio? Quais as maiores dificuldades que você está enfrentando?

SANTIAGO NAZARIAN – Está sendo uma merda. Haha. Não há espaço para nada além do imediato, né? E além da pauta, as livrarias estão fechadas, não dá para fazer eventos de lançamento…
Tem o lado positivo de que as pessoas têm tempo para ler. Mas acho que elas estão
mais mergulhadas na Netflix.

O ESTADO – Desde “Olívio”, seu primeiro romance, passando por “Mastigando Humanos”, até este novo “Fé no Inferno”, como você analisa sua evolução como escritor?

SANTIAGO NAZARIAN – Bom, é difícil eu analisar minha própria evolução… Na verdade, eu tenho uma visão bem particular, de que a arte espontânea é sempre mais viva. Então essa ideia de que o escritor sempre amadurece, eu devolvo com a ideia que ele também perde relevância. Sinceramente, eu acho que a arte é uma iniciativa da juventude, o autor mais velho pode (e deve) ter o que acrescentar, mas ele não é mais protagonista. E tudo bem.

O ESTADO – Com o fechamento de muitas livrarias e o surgimento de novas tecnologias, qual futuro você percebe da literatura no Brasil e no mundo?

SANTIAGO NAZARIAN – Essa nova opção de “POD” (impressão sob demanda), eu acho incrível. Porque tem tantos autores, como eu, que não vendem tanto, mas tem muito destaque em mídia, então poderiam vender conforme a demanda. Claro, é também uma forma de desistência, como se as editoras assumissem que não podem ampliar o público leitor, que não podem chegar além de quem já está interessado. Mas a situação já está tão feia, que vejo como um mal menor.

O ESTADO – Você é formador de opinião, ícone da cultura pop, entrevistado em vários
programas de TV,  serve de inspiração para músicos e outros artistas, além de ser admirado pelo público LGBTQ+. Teria coragem de se expor mais, participar de algum reality show, ou algo do tipo?

SANTIAGO NAZARIAN – Acho que a questão não é coragem, é vontade e grana. Vontade, não tenho nenhuma, grana, poderia ser. Eu sou bem recluso, então não tenho temperamento pra isso, mas claro que com uma ótima proposta poderia pensar; mas eu sou um escritor dito “underground”, não acho que seja algo muito possível; já houve momentos em minha vida, quando eu era mais jovem, estava mais em evidência, e poderia ter acontecido; por sorte não rolou. Então permaneço com uma ficha quase limpa.

O ESTADO – Como se posiciona em relação a falta de apoio à literatura nacional e a situação da cultura no Governo Bolsonaro?

SANTIAGO NAZARIAN – Não existe cultura no “governo” Bolsonaro, isso é óbvio. E acho tão absurdo essa visão da cultura como “supérflua.”. As pessoas estão trancadas em casa vendo séries de TV, filmes, ouvindo música – queria ver o povo suportar a quarentena com nenhuma forma de arte. Mas os artistas ainda são vistos como supérfluos e vagabundos.

O ESTADO  – Seu gênero literário é muitas vezes classificado como “existencialismo bizarro”. Qual a coisa mais bizarra que você acha no mundo atualmente, sendo difícil, muitas vezes, de aguentar?

SANTIAGO NAZARIAN – Bem, acho que não há nada mais bizarro que o retrocesso medieval de gente que prega até que a terra é plana. É o mesmo povo que acredita em Bolsonaro. Em Edir Macedo. Em Abdelmassih.

Leia a sinopse do livro “Fé no Inferno”Estamos numa época de minorias perseguidas, de nativos expulsos de suas próprias terras, da religião majoritária se impondo sobre um povo. Estamos no Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora; e estamos em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para Domingos, um senhor armênio, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, e na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar de que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo. Com Fé no Inferno, Nazarian se firma como um exímio contador de histórias, mestre indiscutível do ritmo e da condução. Com duas linhas narrativas que se cruzam e se entrelaçam, e mesclando pesquisa histórica, folclore armênio e uma observação mordaz do Brasil contemporâneo, este romance mantém o leitor emocionado e absolutamente envolvido até seu desfecho surpreendente.

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