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Planos de saúde do Ceará distribuem medicamentos sem eficácia comprovada para o coronavírus

quarta-feira, 20 de maio 2020

Mesmo sem eficácia comprovada cientificamente, duas redes privadas de saúde, a Unimed Fortaleza e o Hapvida, começaram a distribuir um coquetel de medicamentos que inclui, respectivamente, a cloroquina e a hidroxicloroquina para o tratamento de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus.

Marcello Casal jr/Agência Brasil

Vistos como uma tentativa de evitar internação de pacientes com a Covid-19, os kits com cloroquina começaram a ser distribuídos pela Unimed nesta terça-feira, 19 de maio. Pelo Hapvida, a hidroxicloroquina está sendo oferecida desde o dia seis de maio.

Entregue gratuitamente e exclusivamente aos clientes das redes de saúde, o paciente deve apresentar receituário médico, termo de consentimento assinado por ele e identificação (carteira do plano e documento de identidade) para poder retirar a medicação nas unidades das empresas.

A Unimed deve distribuir 15 mil tratamentos de cloroquina. Já o Hapvida informa que serão 20 mil de hidroxicloroquina.

Estudos não veem eficácia e apontam risco de morte com remédios

A cloroquina e a hidroxicloroquina (derivado da cloroquina e guarda as mesmas propriedades, mas tem a toxicidade atenuada) já são usadas no tratamento da malária e algumas doenças reumáticas como artrite reumatoide e lúpus.

Uma das principais pesquisas para saber se os remédios poderiam ser usados no combate à Covid-19 teve resultado publicado este mês na revista científica “Jama” (“Journal of the American Medical Association”).

O estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Albany, nos EUA, não encontrou relação entre o uso do medicamento e a redução da mortalidade pela doença. Foram analisados 1.438 pacientes infectados com coronavírus, em 25 hospitais de Nova York.

A taxa de mortalidade dos pacientes tratados com hidroxicloroquina foi semelhante à dos que não tomaram o medicamento, assim como à das pessoas que receberam hidroxicloroquina combinada com o antibiótico azitromicina.

Ainda segundo os autores do estudo, os pacientes que tomaram a combinação de medicamentos tiveram duas vezes mais chances de sofrer parada cardíaca. Problemas cardíacos são um efeito colateral conhecido da hidroxicloroquina.

Outra pesquisa sobre o tratamento com hidroxicloroquina, cujo resultado foi publicado recentemente na revista britânica “The New England Journal of Medicine”, já havia apresentado conclusão semelhante à divulgada pela “Jama”.

O estudo, feito no Presbyterian Hospital, em Nova York, e revisado por outros cientistas, não encontrou evidências de que a droga tenha reduzido o risco de intubação ou de morte pela Covid-19.

Foram analisados pacientes em quadros moderados a graves.

Entre 1.376 pessoas acompanhadas, pacientes com e sem o tratamento com a droga apresentaram o mesmo risco de uma piora, necessidade de intubação e de morte.

Entidades da área médica não recomendam uso do medicamento

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia recomendam a não utilização de hidroxicloroquina, cloroquina e de suas associações com azitromicina na rotina de tratamento da Covid-19.

As entidades científicas afirmam também que, em um contexto como o atual, os recursos para enfrentamento da pandemia devem ser direcionados para intervenções médicas com maior certeza de benefício.

Secretaria de Saúde do Ceará alerta para riscos

Ao jornal Estadão, a Secretaria Estadual de Saúde do Ceará (Sesa) reconhece que não existem evidências científicas disponíveis sobre a utilização das substâncias para combate a contaminação e a disseminação da doença e alerta que o uso da cloroquina deve ser sempre discutido com um médico, “pois não se trata de medicamento isento de efeitos colaterais”. Além disso, a pasta afirma que o “tratamento domiciliar e a automedicação são, portanto, contraindicados”, ou seja, justamente o que propõem os planos de saúde.

Outro estado

A distribuição de medicamentos também foi adotada pela Unimed Belém (PA). Cerca de 400 pessoas recebem as drogas em um drive-thru instalado pela empresa. Em nota, o ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, do Pará, disse que “isso é propaganda enganosa, isso é crime sanitário, é crime contra a saúde pública”, opina a empresa, que acredita que o intuito é esvaziar os leitos dos hospitais e deixar os pacientes à própria sorte.

Morte em casa

A ampliação do uso de cloroquina para pacientes com quadro leve de Covid-19 pode elevar a pressão por vagas em centros de terapia intensiva e provocar mortes em casa por arritmia. É o que afirma o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Ao jornal Folha de S. Paulo, Mandetta disse: “Do que sei dos estudos que me informaram e não concluíram, 33% dos pacientes em hospital, monitorados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender o uso da cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada (cardíaca)”.

Esse risco foi que teria levado o ex-Ministro a adotar a orientação de usar a cloroquina apenas para os casos graves em hospital. Fora do hospital, o uso do medicamento fica sob conta e risco do médico assistente.

Empresas rezam cartilha do presidente

Mesmo sem evidências científicas de suporte, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido) tem pressionado para uma utilização ampla da droga, inclusive para casos leves. A pressão levou à queda do ex-ministro Nelson Teich, que, após um ultimato do presidente por um protocolo de uso da droga para casos leves, afirmou que a mudança não era correta e não tinha amparo cientifico e pediu demissão.

Fonte: FETAMCE

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