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Cajucultura: alta de 40% no Ceará ameaçada

Estimativa do sindicato dos produtores pode não acontecer se combate à praga da mosca branca não for liberado

segunda-feira, 09 de outubro 2017

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Em meio às dificuldades da produção, a cajucultura sobrevive no Ceará e tem perspectivas de crescimento em 2017. A expressiva estimativa de alta para a safra deste ano, que já começou, é de 40%, segundo o Sindicato dos Produtores de Caju no Ceará (Sincaju). Contudo, a estimativa pode ser afetada, caso a praga da mosca branca não seja combatida. Segundo o presidente da entidade, engenheiro agrônomo Paulo de Tarso Meyer Ferreira – que representa o setor há 21 anos –, um produto desenvolvido no município de Jaguaruana – distante 183 quilômetros de Fortaleza – pode erradicar o problema: o óleo de alecrim-pimenta. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Estado, o dirigente destaca as características do produto, e a corrida contra o tempo para o registro, e em favor da comercialização e, principalmente, salvação da safra.

Ilustração

O Estado – Quais ações já estão em andamento para garantir a produção deste ano?
Paulo de Tarso – O agrônomo Everardo Ferreira Telles e eu estivemos, semana passada, reunidos com a superintendente do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) no Ceará, Maria Luisa Silva Rufino, para tentar o registro de um produto orgânico que extingue a mosca branca, que estava dizimando os cajueirais. Estive em Ocara (a 101 quilômetros de Fortaleza), na ida para Aracoiaba, onde houve um encontro de produtores, e observei a grande incidência de mosca branca. Por coincidência, o engenheiro agrônomo Everardo Telles produziu, em uma fazenda em Jaguaruana, o produto orgânico chamado alecrim-pimenta, que está sendo usado, em caráter experimental, na erradicação da praga na região. Para que esse produto seja comercializado, segundo a própria superintendente Maria Luisa, o produto tem que passar pelo Mapa, no Ceará, e ir para Brasília para ser liberado.

OE – Considerando o tempo empregado para o controle do oídio, como a nova praga pode prejudicar a safra?
PT – Nossa preocupação é porque nossa estimativa, após visitar os quatro polos – Aracati, Pacajus, Itapipoca e Camocim –, é que teremos a safra 2018/2019 40% superior à passada, em torno de 57 mil a 58 mil toneladas – já que, na passada, atingimos 39 mil toneladas. Na safra passada, enquanto tentamos combater o oídio – que ataca o pedúnculo do caju –, o produto para combatê-lo demorou quase três anos (para ser registrado e comercializado). Se acontecer a mesma coisa com o registro do alecrim-pimenta, vamos perder um ano e essa nossa estimativa não vai atingir 40% (acima) da safra passada, porque a incidência da mosca branca no cajueiro, em Ocara, está muito grande. A mosca cobre completamente a folha do cajueiro, ficando esbranquiçada, soltando uma fuligem, atraindo outros insetos e fazendo com que não haja a fotossíntese – processo de formação dos hidratos de carbono pelas plantas verdes, através do CO2 do ar, água e energia luminosa. Como o (agrônomo) Everardo nos doou cinco litros do óleo de alecrim-pimenta, levamos para esse encontro (com a superintendente do Mapa) e deixamos uma amostra em Ocara para que o produtor testasse esse produto em uma propriedade de cinco hectares, e foi um verdadeiro sucesso.

OE – Quanto poderá ser a perda na safra, se o registro não sair este ano?
PT – Segundo o técnico do Ministério da Agricultura, esse produto não pode ser comercializado antes de ser registrado, mesmo sendo um produto orgânico, produzido aqui, em Jaguaruana. Quanto a essa amostragem, o técnico disse que não havia problema. Contudo, produtos estrangeiros são rapidamente aprovados e registrados no Mapa, beneficiando outros países, em detrimento do nosso, feito no Ceará. Estivemos no Mapa argumentando que esse produto alecrim-pimenta extinguiria a mosca branca, fazendo com que o cajueiral produzisse. Para sorte nossa, alguns municípios circunvizinhos dos polos não foram atingidos por essa praga, mas pelo gafanhoto, que demorou pouco tempo e se foi, como em Itapipoca, por exemplo. A safra do cajueiro é setembro a dezembro. Se o registro ficar para 2018, vamos perder um ano, e, além de perder um ano, vamos ter um decréscimo de 15% a 20% na estimativa do Sincaju para o aumento da safra de 2017, que já começou.

OE – Como foi desenvolvido o inseticida? Tem algum efeito contrário para o caju, em si?
PT – O produto foi desenvolvido por dois engenheiros agrônomos cearenses. Acredito que, até chegar no ponto de utilização, o produto foi estudado no período de duas safras. O alecrim-pimenta é um óleo que, junto a outro componente, elimina a mosca branca do cajueiro. Temos três tipos de agrotóxicos: vermelho, azul e verde. Esse que apresentamos é um inseticida verde – que não tem toxidade nenhuma –, e pode ser pulverizado e, na mesma hora, o caju pode ser consumido e utilizado imediatamente, fazendo o sumo (suco) ou cajuína, por exemplo. É um produto que vai beneficiar quem produz, seja indústria ou produtor, não precisando comprar produtos altamente tóxicos. Se tivesse acontecido o registro do Kumulus, para combater o oídio, na safra passada, nós teríamos muito mais pedúnculos, que está tendo um valor imenso – diferente de cinco anos atrás – como para a fabricação de cajuína, do que propriamente a castanha. A aplicação do Kumulus não prejudicou a amêndoa, mas fez com que a castanha não ficasse clara e bonita – porém com aspecto que desvalorizou, para o industrial, porque modificou a cor, devido ao ataque do oídio, que é um fungo.

OE – Quanto à finalidade, além da mosca branca, o alecrim-pimenta pode ser usado para combater outras pragas?
PT – A mosca branca tem vários tipos, como da acerola e abacaxi. O que ataca os cajueirais, toma totalmente a folha do cajueiro, tornando-a esbranquiçada e impedindo a fotossíntese. Para o oídio, por exemplo, utilizamos outro produto, no caso, o Kumulus, cujo princípio ativo é 90% enxofre. Tanto na safra passada como na atual foi autorizado o seu uso, e já podemos pulverizar os cajueiros. Como exemplo, na safra passada, um produtor que tirava 100 caixas por dia de caju e castanha, após a pulverização do Kumulus, esse número subiu para 400 caixas por dia. O seu uso é preventivo, ou seja, não mata o fungo – podendo ser aplicado no período das inflorescências –, mas, com essa pulverização (prévia) o oídio desaparece. No exemplo do Kumulus, tivemos até três anos para ser registrado, no Mapa daqui e de Brasília. Foram três anos de pedúnculo sem aproveitamento, em vários municípios, tanto que duas indústrias do litoral leste foram prejudicadas, porque ele (oídio) danifica completamente o pedúnculo, o pseudofruto – que racha e se esfarela –, sendo aproveitada somente a castanha. E o trabalho do Sincaju, foi sempre agregação de valor, até que veio essa presença do oídio, de cinco anos para cá.

OE – E como o Sincaju vem atuando para reforçar a produção no Estado?
PT – O cajueiro é uma cultura que deixou muitos recursos para o Ceará, fixando o homem no campo. E, com o índice pluviométrico sobre os concentradores de plantio de cajueiro, e acima do ano passado, não teve um só município que ficasse abaixo de 800 milímetros. O primeiro parâmetro para que o produtor se entusiasme e faça os traços culturais – cortando os galhos secos, galhos com antracnose, gradagem e uso de insumos –, é com o índice pluviométrico. Nesse ano, por exemplo, o produtor não precisou comprar insumos, porque o próprio cajueiro dele deu renda que cobrisse a compra desses insumos e beneficiasse seu produto. O nosso trabalho é, efetivamente, verificar se os recursos liberados pelas entidades governamentais chegam às raízes do cajueiro. E, muitos desses recursos não chegaram, ficaram no meio do caminho.

OE – Já há articulações com políticos que favoreçam o registro?
PT – A superintendente do Mapa, Maria Luisa Rufino, teve a maior boa vontade com o engenheiro Everardo e comigo, demonstrando interesse em agilizar o registro – que já deve ter sido enviado a Brasília. Agora, temos que fazer força com algum político forte no Ceará. Para se ter uma ideia, o Sincaju foi quem elaborou o Fundo de Apoio à Cultura do Caju (Funcaju), que levou 14 anos engavetado. Depois de todo esse tempo, encontre-me com o senador Eunício Oliveira, pedindo a retirada desse projeto da gaveta de um outro senador, que não entregou para que fosse sancionado pelo presidente da República, há 14 anos. E o saudoso senador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, com menos de seis meses, liberou o Funcacau, para combater a (praga da) vassoura de bruxa, que estava exterminando a cultura do cacau na Bahia. Aqui no Ceará, eram 150 mil produtores trabalhando, e, hoje, esse número não chega a 15 ou 20 mil na cajucultura. Ou seja, caiu muito. Com a assinatura do Funcaju (pela então presidente Dilma), foram beneficiados mais de 70 mil produtores do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Enfim, precisa de um trabalho efetivo dos senadores e deputados federais cearenses para que os recursos sejam liberados.

OE – Com esse contato com a superintendente do Mapa, qual o tempo estimado para registro e início da comercialização do alecrim-pimenta?
PT – A superintendente pediu para que fosse enviado imediatamente essa demanda a Brasília, e ficar acompanhando esse produto, dentro de 15 dias, após o contato que fizemos. Se ficarmos esses quatro meses sem resposta, só vai adiantar o registro para o próximo ano, já que a safra encerra em dezembro – no máximo, até o dia 15 de janeiro do próximo ano, e se não chover, porque, chovendo, o cajueiro corta. Então, só temos quatro meses para que o produto seja comercializado e, onde tiver incidência grande de mosca branca, tentar salvar alguma produção ou aumento de produtividade da maioria dos pequenos produtores. Então, com o registro, é mais uma atividade que ingressa na cadeia produtiva do caju, valorizando o que é nosso. Está nas mãos do Governo e, até o final de outubro, deveremos ter esse posicionamento. E, com a aprovação, vamos correr para divulgar isso, para que o produtor utilize o alecrim-pimenta para combater a mosca branca.

Glossário

Oídio. Doença que ataca diversas culturas, mas, na plantação de caju, especificamente, ela provoca sintomas nas folhas e até nos frutos, causando perdas significativas na produção.

Fuligem. Pó esbranquiçado nas folhas do cajueiro atacado pelo oídio, que se solta com o esfregar dos dedo, e cheira a fungos. Um ataque leve vai sobretudo atingir as folhas mais velhas.

Toxidade. Qualidade que caracteriza o grau de virulência de qualquer substância nociva para um organismo vivo ou para uma parte específica desse organismo, como um veneno ou uma toxina produzida por um agente microbiano.

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