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Gastronauta

Brasileiro urbano redescobre fogão de casa na pandemia e renova cozinha para novos tempos

segunda-feira, 09 de novembro 2020

Um dos muitos efeitos da quarentena foi o redescobrimento, nas grandes cidades, da cozinha, preterida pela comida a quilo durante o trabalho e pelo restaurante do final de semana.

Foto: Reprodução

Para deixar o almoço no meio do expediente mais prático durante a crise da Covid-19, brasileiros compram utensílios e eletrodomésticos novos, fazem a reforma da área e buscam receitas na internet.

Além da comida do dia a dia, com mais tempo em casa, muitos desenvolveram um hobby e passam a se aventurar em receitas mais elaboradas.

Carla Cecci, 51, almoçava fora todo dia e agora faz almoço e janta para o marido e a mãe. “Essa coisa de cozinhar todo dia não existia para mim. É necessário todo um planejamento, nunca tinha me dado conta de que demandava tanto.”

Para facilitar a dupla jornada, a profissional de marketing comprou R$ 600 em equipamentos. “Foi meu maior investimento dos últimos tempos. Comprei air fryer [fritadeira sem óleo], panela de arroz e batedeira, coisas que nunca pensei em comprar antes. Agora tem bolo toda semana em casa.”

Ela conta que cozinhar todos os dias despertou o interesse por culinária, algo que ela pretende seguir mesmo com o fim da quarentena.

“Não tenho mais vontade de ir a restaurantes com a frequência que ia. Aprendi a fazer marmitas tranquilamente. E, em casa, você acaba comendo muito melhor. A gente gasta mais com supermercado, mas menos em restaurante, vale a pena.”

Dados da Social Miner, empresa que monitora sites de comércio eletrônico, apontam que compras de supermercado e hortifrúti viraram o segundo item mais vendido no meio digital, atrás de farmácia, durante a pandemia. Eletrônicos, que ocupavam a primeira posição, caíram para a sétima.

“É um movimento que vem mesmo antes da pandemia. No ecommerce, compravam-se livros e eletrônicos, depois a moda avançou e, nos últimos anos, veio a alimentação. A venda de itens essenciais ainda não é tão representativa, mas foi a que mais cresceu na pandemia”, diz Ricardo Rodrigues, cofundador e presidente da Social Miner.

Pesquisa da empresa com 2.000 pessoas aponta que 66% vão comprar itens de supermercado online em 2021. “No horário de almoço não vemos mais o tradicional pico nos sites de ecommerce. Fica eviden- te que a rotina mudou, as pessoas estão cozinhando ou pedindo delivery”, diz Rodrigues.

Itens de cozinha seguem o movimento. Na Tramontina, as vendas de panelas cresceram 17,21% de janeiro a agosto em relação ao mesmo período de 2019.

Também aumentou a procura por clubes de assinaturas de alimentos. O faturamento da Betalabs, que oferece plataforma para ecommerce e clubes de assinatura, subiu 14% no faturamento com clubes de assinatura de alimentos no ano. Em outubro, seus mais de 100 clientes nesse segmento tiveram uma média diária de 200 novos assinantes. A maior demanda foi por alimentação saudável, seguida de congelados e doces.

O brasileiro também foi atrás de receitas. Em toda a série histórica do Google, que se inicia em 2004, nunca se buscou tanto “receita de pão” como em abril deste ano. O termo “receita” atingiu seu ponto mais alto das buscas em abril e maio de 2020, e “cozinha” teve seu pico em junho.

“Esse fenômeno do pão é in- crível, chegou a faltar fermento biológico nos supermercados”, diz Betty Kövesi, dona da Escola Wilma Kövesi de Cozinha.
Ela conta que a procura por cursos por quem não sabe cozinhar aumentou. “São jovens na casa dos 30 anos que moram sozinhos ou com namorados e estão de home office.”

Buscas por mais básicos da escola, que ensinam a fazer arroz e feijão e fritar um bife, começaram antes da pandemia.
“Essa história de pedir delivery todo dia à noite já existia antes da pandemia. Recebia alunos que não se alimentavam bem, e a recomendação de psicólogos era cozinhar como forma de terapia. Com certeza [a pandemia] foi uma mudança de paradigma, acelerou a procura por hábitos mais saudáveis.”

A relações-públicas Melina Buzzo, 22, comprou três panelas, facas profissionais e louças e conseguiu levar o hobby de cozinhar a sério. Aproveitou para treinar receitas, até que se matriculou em um curso de cozinha profissionalizante de dois anos.

“Cozinhava doces havia um tempo e sabia o básico, mas, com faculdade e trabalho, não tinha tempo. Com a pandemia, fui para a casa dos meus pais, e a cozinha foi uma válvula de escape”, afirma.

Fernanda Apolônio, 24, optou por cozinhar todas as refeições em casa por medo de contaminação com o delivery.

“Sempre gostei muito de cozinhar, mas na correria não dava e era mais prático comer em quilo, que não era tão caro perto da faculdade.” Com a economia de tempo do trajeto para o trabalho, passou a fazer três receitas por dia.

“Comprei várias formas, liquidificador, processador e panelas. Investi e me acostumei a não comer fora. Você fica com preguiça de cozinhar e só se acostuma. Agora é tranquilo cozinhar, é relaxante. Estava estressada e ficava cozinhando. É muito terapêutico.”

Ela conta que seus amigos também se aventuraram na cozinha durante a pandemia. Um que nunca tinha feito um bolo criou um Instagram de bolos, e outro começou a fazer pão de fermentação natural.

“Comer fora era uma socialização, mais para encontrar pessoas do que para comer na rua. Não tenho mais essa vontade. O próximo passo é fazer um superjantar com os amigos que aprenderam a cozinhar”, diz a recém-formada advogada.

Parq João Caetano, fundador da consultoria Mapfry, porém, a volta à cozinha não resiste no pós-pandemia.
“Acreditamos que o hábito de cozinhar mais não perdure tanto, sendo mais um reflexo da crise atual”, afirma.

Segundo ele, a presença das mulheres no mercado de trabalho e cada vez menos pessoas em papéis domésticos, bem como famílias pequenas, levam a uma redução no preparo doméstico de alimentos.

“As próprias cozinhas vêm sendo o espaço mais sacrificado nas casas modernas, e isso também não deve mudar. A demanda por espaços para home office e estudos fica na frente da expectativa por uma cozinha ampla.”

Fonte: Folhapress

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