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Alternativa sustentável em Fortaleza

segunda-feira, 13 de abril 2020

Por Natasha Ribeiro

A urbanização de Fortaleza vem se modificando a cada ano que passa. A evolução toma espaço e a adaptação ao novo nem sempre é fácil de se acostumar. Para a mobilidade urbana dar certo o primeiro passo é essencial que convivência e consciência andem juntas.

O exemplo disso é o programa da Prefeitura de Fortaleza voltado para as bicicletas compartilhadas: o Bicicletar. A Unimed Fortaleza confiou no projeto, a iniciativa vem crescendo a todo vapor e ainda vai ser ampliado. Essa aposta fez com que gerasse oportunidade de negócios e os equipamentos da Capital recebessem mais de um milhão de usuários.
Fortaleza chega aos seus 294 anos cheia de transformações. Apesar de ainda passar por várias adaptações, o modelo de mobilidade urbana, que está sendo implantado na Capital, já é exemplo em outros países.
Presente nas principais capitais do Brasil e do mundo, o Bicicletar promove coletividade, compartilhamento, qualidade de vida e incentivo à prática de exercícios físicos.

Coordenado pela Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), por meio do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito de Fortaleza (PAITT), o projeto é pioneiro no país pelo foco na integração de modais, ofertando, segundo o planejamento cicloviário da atual gestão municipal, uma alternativa sustentável de transporte em Fortaleza.
De acordo com o secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Luiz Alberto Sabóia, a política cicloviária tem vários impactos na cidade. “O Sistema Bicicletar contribui para uma mobilidade sustentável na cidade, além de ser econômico e saudável. Para ter uma ideia, 70% do deslocamento das pessoas são de bicicleta, caminhando ou transporte público e apenas 30% são de automóveis”, destaca.

O brasileiro vê o transporte como o quarto maior problema das cidades. Para Luiz Sabóia, Fortaleza tem toda capacidade, no tempo certo virar uma cidade multimodal. “O que significa? São possibilidades de combinação de várias formas de transportes que atendam as necessidades de deslocamento dos pontos de origem aos de destino das pessoas. Mas para isso acontecer, é preciso que as próximas gestões deem continuidade e aperfeiçoem o projeto. A mudança também é cultural e não se dá da noite para o dia”, pondera.

Vantagens
Em 2020, a capital cearense deve receber mais 114 quilômetros de infraestrutura para uso das bikes. Com o aumento das ciclovias, novas possibilidades chegam a regiões periféricas, e o sistema de compartilhamento do modal deve ser ampliado para receber pelo menos o dobro de estações. Com isso, Fortaleza tornou-se o maior sistema do tipo no Brasil em número de estações, atrás do Rio de Janeiro e São Paulo.
Com o novo modelo das novas estações que estão sendo implementadas, os usuários vão contar com câmeras de videomonitoramento, alarme sonoro, botões individuais para solicitar conserto de bicicletas,  escolha da bike a partir da modalidade Bilhete Único, monitoramento das unidades via GPS e central de atendimento gratuito por telefone.

O projeto geral conta com três fases: a primeira atende 18 bairros, entre eles Barra do Ceará, Cristo Redentor, Pirambu, Jacarecanga, Carlito Pamplona, Álvaro Weyne, Presidente Kennedy, Monte Castelo, São Gerardo, Centro, Farias Brito, Benfica, Parquelândia, Pici, Antônio Bezerra, Padre Andrade, Moura Brasil e Vila Ellery.

A segunda prevê a ampliação do sistema na região sul da cidade como Cidade dos Funcionários, Parque Manibura, Parque Iracema, Cambeba, Messejana e Paupina. Nessa fase estão previstas 30 estações, das quais já foram inauguradas 11, restando, ainda, 19 estações.Já a terceira e última etapa de expansão abrangerá bairros como Montese, Parangaba, Bom Jardim e Conjunto Ceará. Além disso, também está previsto o adensamento do sistema no entorno da área atual com novas estações no Mucuripe, Dionísio Torres e São João do Tauape.

Mais 210 estações
Desde sua criação em 2014, o sistema Bicicletar já registrou 2.988.207 viagens.  Dos 264.518 usuários cadastrados, 91% utilizam o Bilhete Único; 75% utilizam o sistema para deslocamentos diários entre trabalho, compras e estudos; 38% são estudantes, e um a cada três usuários é mulher.
Em média, são 3.100 viagens em dias úteis. Nos finais de semana e feriados, a maior média verificada foi de 2.100 trajetos em 24 horas. Fortaleza conta com um total de 123 estações em operação e irá expandir para um total de 210 até fim do primeiro semestre de 2020.

De acordo com a Prefeitura, o programa deve beneficiar mais de 400 mil pessoas pelas as novas estações. O investimento público alcançou R$ 6,5 milhões arrecadados do Zona Azul e das outras estações.

Normas mais rigorosas

Quem anda com frequência consegue contar inúmeros motivos para pedalar mais de bicicleta na cidade. O amante das pedaladas, o engenheiro civil Clóvis Picanço, de 69 anos, participa desde 2016 do Grupo de Ciclismo Leão Masters Cicloturismo. O grupo reuni-se ,semanalmente, no Parque do Cocó, para realizar passeios recreativos de bicicletas pelas ruas de Fortaleza. “Pedalo todos os domingos saindo do Cocó às 6h30 da manhã. As vezes também aos sábados pela manhã. Por conta da minha idade e da distância do meu trabalho não uso a bicicleta para ir ao trabalho”, conta.
Nos últimos anos, a Capital vem passando por um processo de evolução no que diz respeito a valorizar muito mais os ciclistas. Clóvis enxerga com alegria todas essas mudanças. “As ações feitas pela Prefeitura de Fortaleza só merecem aplausos. Mais ciclofaixas, mais ciclovias, mais estações com bicicletas, isto não pode parar”, ressalta.

Como incentivo para a população a aderir aos pedais, ele acredita que o caminho seja investir em campanhas para que os motoristas respeitem mais os ciclistas. “Normas mais rigorosas devem ser adotadas. Vejo ainda muito desrespeito para quem anda de bicicleta. Também os ciclistas devem obedecer normas, muitos cometem imprudências também. A consciência tem que vir dos dois lados”, conclui.

Lazer para crianças
Outra novidade do Sistema das Bicicletas Compartilhadas é, o Mini Bicicletar, que oferece bicicletas infantis em praças. Em expansão, o serviço conta com 14 estações em espaços estratégicos da cidade.
O serviço é voltado para crianças de três a 10 anos e oferta bicicletas com e sem rodinhas. Portanto, para utilizá-las é preciso que um adulto seja responsável pela retirada e devolução na estação escolhida.
A iniciativa busca incentivar o uso das bicicletas desde a infância, por meio de ações educativas e aumentando as alternativas de lazer para crianças em espaços públicos.

O bom exemplo dos holandeses

Um bom exemplo para Fortaleza se espelhar e projetar para o futuro é a realidade presente de um pequeno país europeu que se destaca no âmbito das pedaladas e amor pelas duas rodas. A Holanda possui, hoje, 17 milhões de habitantes. Porém, o que chama a atenção nos Países Baixos é a quantidade de bicicletas existentes: 23 milhões de exemplares. Exatamente, o país contabiliza mais bikes do que gente. Nove em cada 10 holandeses tem a bicicleta como seu principal meio de transporte, seja ele para ir ao trabalho ou, principalmente, aproveitar os momentos de lazer.
Turistas que se encantam pelas belezas da pequena nação abaixo do nível do mar seguem um rumo contrário ao valorizarem os transportes mais comuns, a motor, e se surpreendem com a naturalidade com que os ciclistas se integram ao trânsito nas cidades.


A Holanda investiu em infraestrutura, educação e leis protetivas para que todo o processo se tornasse a realidade atual. O exemplo vindo do país europeu serve para nortear e direcionar projetos ainda mais ousados com relação à mudança de mentalidade do cearense com relação aos benefícios de usar as bikes.

Sempre em movimento para não cair

Uma das personalidades mais carismáticas e conhecidas do jornalismo cearense, a repórter e apresentadora Ian Gomes é uma das maiores entusiastas da prática das pedaladas. Cultivando o amor pelas bikes desde criança, em Senador Pompeu, a também radialista mantém o hábito de andar de bicicleta até hoje. “Quando comecei a trabalhar, ainda adolescente, na Rádio Sertão Central, usei o meu primeiro salário para comprar uma bicicleta. Eu encaro pedalar como uma terapia, um exercício de equilíbrio, a paciência. Assim, posso ver melhor a cidade. Isso sem contar nos tantos benefícios para a saúde”, relata. A jornalista faz questão de enaltecer sempre as vantagens de usar a bicicleta para quase tudo. “Potencializo sempre os benefícios. Não  penso muito nos perigos, embora existam. Faço trajetos mais longos aos domingos, pois a cidade tem menos movimento e, assim, há mais espaço para nós ciclistas”. 


Ian, que atualmente apresenta o programa “Viver Mais”, na TV Ceará, e é repórter e apresentadora na FM Assembleia, é adepta do projeto Bicicletar, lamenta pelo calor fortalezense, mas deixa o ensinamento correlacionando as pedaladas com a vida. “Com as bikes do Bicicletar pedalo com certa tranquilidade, já que com a minha eu morro de medo de ser roubada. O detalhe que atrapalha um pouco é o nosso clima, faz muito calor. Gostaria muito de poder ir trabalhar de bicicleta, mas não é possível. Mesmo assim uso bastante a bike como lazer, vou ao supermercado, já fui ao médico, visito amigos, enfim. Viver é como andar de bicicleta, sabia? Sempre em movimento para não cair”, completa.

O inverso nos municípios

As cidades interioranas sofreram um fenômeno inverso ao que está acontecendo na Capital. Até as décadas de 1980 e 1990, as bicicletas eram os principais meios de locomoção nos municípios cearenses e seus pacatos moradores. Embora ainda haja sinais de resistências as populares “magrelas”, o uso do transporte foi sendo substituído pelas motos.
Limoeiro do Norte, situada no Vale do Jaguaribe, já foi conhecida como a “Terra das Bicicletas”, inclusive condecorada como a cidade mais ciclística do Brasil. Hoje, o cenário está bem diferente no município jaguaribano. As motocicletas roubaram a cena e hoje dominam a cidade. Mas ainda é bastante comum ver senhores e senhoras, adultos e crianças desfilarem livremente pelas ruas da “Princesa do Vale” em suas bikes, sejam elas das mais modernas ou mesmo as relíquias, dignas de museu.

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