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Areninhas: cenários repaginados por mudanças sociais na capital cearense

segunda-feira, 13 de abril 2020

Por Fellipe Málaga

Onde antes não havia cor, vida e essencialidade, hoje o cenário é de sonhos, esperança e futuro. A bola que rolava pelas vielas de pedra e lama, de calçamento pontiagudo, é a mesma que agora desliza livre e suave por sobre o tapete esverdeado. Enquanto muitos se divertem praticando inúmeras atividades, outros tiram dali um relevante complemento de renda ou mesmo o sustento das famílias. Estamos falando das já populares Areninhas, equipamentos espalhados por toda Fortaleza e que ajudam a reconstruir e repaginar regiões – e histórias.
Já são mais de 20 espaços desportivos distribuídos ao longo de quase seis anos de projeto, além de milhares de vidas impactadas, direta ou indiretamente. Os campos e seus arredores estão metamorfoseando a realidade em áreas com enorme vulnerabilidade social e baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), contemplando todas as faixas etárias.
“As areninhas são um fenômeno social. Reúnem as comunidades de manhã, de tarde e de noite. São espaços de oportunidades, de alimentação de sonhos, de movimentação econômica. Nos espaços são ensinados valores. A paz é responsabilidade de todos nós. Espaço público digno promove o convívio, estimula a geração de emprego e fortalece laços de solidariedade”, detalha Roberto Cláudio, prefeito de Fortaleza.

Transformação
E é a partir daqui que contamos algumas boas histórias, ligadas diretamente aos campos urbanizados da cidade alencarina. Mãe solteira e com quatro filhos para cuidar, Adelaide Bezerra viu na construção de uma areninha em seu bairro uma real oportunidade de promover mudanças em sua vida. “Eu saía todo dia de casa cedinho para trabalhar como diarista, meus filhos ficavam com minha irmã, mas eu sabia que era muito pesado para ela dar conta dos filhos dela e dos meus. Quando construíram a Areninha aqui próximo de casa eu tive a ideia”, relata.
Adelaide, então, passou a usar os dotes culinários – aprendidos com a mãe – e cozinhar para poder vender comida nos arredores da praça esportiva. “No começo eu fiquei com medo, mas arrisquei. Parei de ser diarista, até inventei para alguns clientes que estava adoentada, mas eu queria mesmo era fazer meu negócio dar certo. Passei a produzir e vender ‘pratinhos’. Aos poucos fui colocando mais opções e, depois de alguns meses, minha irmã passou a me ajudar. Hoje praticamente vivo disso, uma renda um pouco melhor do que a que eu tinha como diarista, só que agora posso ficar em casa, cuidando dos meus filhos e não preciso atravessar a cidade para trabalhar”, explica a sorridente cozinheira.
A agora ex-diarista comemora a nova fase profissional e diz que sem o equipamento instalado no Sítio São João (Grande Jangurussu) não seria possível nada disso. “Antes aqui era um campo, mas pouco utilizado, e com a areninha e a revitalização da praça tudo ficou diferente. Agora é frequentado por todo mundo, está menos perigoso, as crianças brincam, o pessoal pratica seu esporte e eu vou vendendo minhas comidas. Todo mundo ganha com isso, não é?”, completa.

Ganho a mais
Raimundo Amaral exerce a função de pedreiro durante a semana, profissão que herdou do pai e cumpre há 34 anos. Porém, com o advento da areninha, os finais de semana de Seu Raimundo nunca mais foram os mesmos. “Eu sempre gostei de ganhar dinheiro, sempre inventei alguma coisa para ganhar um trocado a mais e poder levar comida para casa. Como moro aqui próximo do campo, resolvi investir um pouquinho para aumentar o ganho da casa. Tem quase dois anos que deu uma melhorada boa”, explica.
O pedreiro deixou de mexer com argamassa e erguer paredes nos finais de semana para incrementar a renda familiar nos moldes parecidos aos de Adelaide: comercializando comida. “Quando chega sexta à noite eu já começo a vender espetinhos, refrigerante e cerveja para quem está por aqui por perto da areninha. Minha esposa e um dos meus filhos me ajudam. O movimento tem sido bom, o inverno atrapalha um pouco, mas normalmente é bom. Aqui já foi mais perigoso, hoje em dia, com a areninha, a coisa melhorou muito”.
Com o dinheiro extra que está entrando, Seu Raimundo até pensa em expandir os negócios. “Eu estou bem animado, conversei com meu filho e imagino até mandar fazer outra churrasqueira, bem maior, pra poder assar mais espetinho, aumentar as vendas, colocar mais opções de bebidas. Minha esposa diz que vai começar a fazer sanduíches também, outras comidas, vou comprar mais mesas e cadeiras, aproveitar a maré boa, não é? Aqui no Quintino Cunha as coisas estão melhorando para todos, isso é que é bom, rapaz”, projeta.

Comprovação
Responsáveis pela segurança do Estado, agentes das Polícias Militar e Civil confirmam que a implantação dos equipamentos desportivos, além da revitalização de várias áreas que antes eram quase inutilizadas ou tomadas pelo poder da criminalidade, foram essenciais para a mudança positiva do panorama em quase todas as regiões da Capital.
“É inegável que a situação de violência em determinadas áreas foi reduzida e um dos agentes responsáveis por tal feito são os novos campos construídos pelos governos municipal e estadual. As areninhas transformaram cenários, onde não existia movimentação da população hoje tem iluminação adequada, pessoas se exercitando, famílias inteiras desfrutando dos benefícios, além do incentivo à prática esportiva. A percepção das regiões muda, a sociedade ganha, o crime perde, a segurança agradece”, detalha um policial militar, que preferiu manter sua identidade sob sigilo.
O inspetor José Brito, da Polícia Civil e que trabalha em uma delegacia da Área Integrada de Segurança 3 (AIS 3), confirma as palavras do agente militar. “As areninhas são elementos primordiais nessas ações de requalificação de áreas com maior vulnerabilidade. Os projetos que fazem parte, olhando de forma macro, dessas ações só trazem benefícios à sociedade”.
“Eu ando diariamente por inúmeros bairros onde a criminalidade tem enorme influência e posso afirmar que a situação social já pode ser vista com outros olhos, lugares quase abandonados ou campos sem estrutura deram lugar a praças iluminadas, é possível ver crianças brincando, algo praticamente impossível até pouco tempo atrás. Esse impacto é refletido em todas as camadas da sociedade, pode ser sentido por quem frequenta a periferia como eu. Esse é um dos grandes acertos da gestão de Fortaleza, vale a pena ser ampliado ao máximo”, completa.

Mais exemplos
A areninha da Vila Manoel Sátiro é uma das inaugurações mais recentes do governo e, de cara, já impacta positivamente os moradores – em todos os sentidos. Maria Silvana busca, assim como os demais, conquistar um dinheiro extra que acaba se tornando essencial para a renda familiar. A moradora não descansa aos finais de semana porque oferece à criançada opções de diversão, como cama elástica (o tradicional pula-pula) e piscina de bolinhas. Com o movimento nos arredores da areninha instalada em seu bairro, Silvana vai lucrando e agradece a Deus pela redução da periculosidade na área.
“Se tem algo que já não se vê como em outros tempos é a violência. Todo mundo percebe que diminuiu. Existe, mas diminuiu. Com a areninha aqui, o bairro está bem mais familiar e, com certeza, com os treinos e campeonatos virão muitas pessoas para usufruir do local e do meu negócio. Sem falar na academia instalada, que beneficiou não só as crianças, mas também os idosos e toda a população em geral”, revela.
Diante das circunstâncias, a implantação das já famosas areninhas acabou se tornando muito mais do que um ganho desportivo para regiões com alto índice de criminalidade em Fortaleza e região metropolitana. Hoje, os espaços são vistos como divisores de água no âmbito social, o que, de fato, era uma das ideias iniciais do projeto. A tendência é que o número de campos urbanizados seja aumentado com o passar dos meses. A expectativa da gestão municipal é de que mais 30 areninhas sejam construídas pela capital cearense em uma nova etapa do vitorioso projeto.

Suspensão das atividades
devido ao novo coronavírus

O mundo inteiro está imerso em um momento único, ímpar da História devido ao surto do novo coronavírus (covid-19), portanto, um cenário de pandemia não combina com aglomerações e exercícios que agrupem muita gente. Diante disso, as atividades em todas as areninhas e mini areninhas do Estado estão suspensas por tempo indeterminado, pelo menos até as autoridades competentes entenderem que o risco de contaminação do vírus está controlado e a população livre para retomar a vida normalmente.

Estrutura física das
areninhas da Capital
Gramado sintético, bancos de reserva, arquibancadas, redes de proteção, alambrados, vestiários, depósito para materiais esportivos, iluminação, paisagismo, pavimentação e rampas de acesso para cadeirantes.

Atleta Cidadão:
ferramenta de inclusão
Todas as praças esportivas possuem uma célula do projeto Atleta Cidadão, que dispõe, dentre outras coisas, de aulas de futebol de maneira gratuita a crianças, adolescentes e adultos – de 8 a 29 anos -, com inscrições abertas, bastando se cadastrar. O esporte servindo como ferramenta de inclusão social e cidadania.
Complemento
do projeto
Fortaleza, conta, também, com 12 mini areninhas construídas ao longo de quase anos de implantação do projeto.

Expansão das
boas ideias
Com o projeto das areninhas se transformando em um verdadeiro sucesso desportivo e social, a ideia dos campos populares foi adotada também pelo governador do Estado, Camilo Santana, que já está levando os equipamentos para o interior cearense e sua expectativa é de premiar todas as 184 cidades com areninhas.

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