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Doação de leite: solidariedade de mãe para mãe

segunda-feira, 13 de abril 2020

Por Anderson Cid

Atos de solidariedade não nascem em um vácuo: são efetivados, muitas vezes, quando uma pessoa chega a ter contato direto com as dificuldades vividas por outro indivíduo, compadecendo-se então e decidindo prestar auxílio. Há casos, porém, em que essa solidariedade consegue florescer sem que esse contato sequer exista, unindo pessoas diferentes em atos de doação simplesmente pela vontade de ajudar. Na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), exercita-se este último tipo, com as atitudes solidárias motivadas em grande parte por uma experiência comum entre as pessoas envolvida: ser mãe.


É o que motivou a médica Nathalia Siqueira a começar a doar leite materno para a Unidade Neonatal da Meac, como fazem várias outras mães em Fortaleza. Ela nunca teve contato com uma das mães ou crianças que ajudou – até porque a doação não é feita de modo direcionado, e sim para o banco de modo geral, com um frasco de leite podendo ser armazenado por bastante tempo antes que ele seja utilizado –, mas sente que, como pode ajudar, é isso o que deve fazer. Desde setembro, quando seu próprio filho tinha apenas dois meses, ela doa semanalmente ou quinzenalmente para a Meac.


“Eu ter um bebê pela primeira vez, então eu tentei empatizar um pouco com outras crianças. Sei que tem criança que nasce e necessita de um auxílio, leite materno, e às vezes a mãe não tem condição, como quando é prematuro. E, sendo uma mãe que tem capacidade de ter leite tanto para o neném dela quanto para o outro, pode ajudar”, conta ela, ressaltando que os nutrientes e anticorpos presentes no leite materno fazem com que até mesmo uma pequena quantia doada às vezes já pode ser o suficiente para ajudar uma criança necessitando de alimentação adequada.

Atuação
O Banco de Leite da Meac realiza cerca de 200 atendimentos por mês, estando em cada atendimento inclusos mãe e bebê. Hoje em dia, o leite humano pasteurizado disponível está sendo capaz de beneficiar 25 bebês internados nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTINs). São bebês em situação mais grave, prematuros extremos e de baixo peso.


Segundo a enfermeira Janaína Landim, que é chefe do Banco de Leite Humano da unidade hospitalar, essas atitudes são bastante valorizadas pelas mães das crianças a quem é destinado o leite doado: “São muito agradecidas. Costumamos ouvir que vão rezar pelas mães doadoras e pelos seus bebês.” Ela conta ainda que essas mães que são beneficiadas, quando chegam à Meac, têm sempre algum problema que as impede de amamentar e que, após um trabalho de orientação feito pela equipe do Banco de Leite para fazer o processo de amamentação fluir, elas costumam sair bem mais aliviadas do que chegaram.


Entre os problemas que levam essas pessoas à Meac estão o aparecimento de fissuras (rachaduras) nos mamilos, ingurgitamento mamário (empedramento) ou até mesmo posicionamento inadequado do bebê no peito. Muitas vezes são problemas provocados por nascimento prematuro, o que faz com que a mãe fique ansiosa pelo seu leite ainda não ter descido. “Quando sabem que seu bebê receberá o leite humano pasteurizado doado elas ficam mais tranquilas e começam a produzir o próprio leite”, conta Janaína.

Isolamento
Durante o período de isolamento social, o Banco de Leite da Meac continua recebendo doações regularmente, com o trabalho sendo considerado essencial, uma vez que as crianças atendidas muitas vezes precisam das doações para manterem alimentação e desenvolvimento saudáveis. Segundo Janaína, todos os funcionários foram treinados e usam equipamentos de proteção individual adequados.
Na data do último dia 26, o Banco de Leite contava com um estoque de 29 litros – quando o ideal é ter disponíveis pelo menos 30, por questão de segurança. O setor de nutrição da unidade tem solicitado para as UTINs em torno de 1,9 litros de leite diários, o que tem sido suprido até o momento. A enfermeira conta que, nesse ponto, a equipe começava a sentir uma diminuição nas doações de leite humano, possivelmente relacionada às mudanças provocadas pelo combate ao coronavírus, mas uma diminuição discreta. “Creio que não caíram muito as doações porque dispomos de um motorista que coleta o leite dessas doadoras em domicílio”, pontua. No fim das contas, o impacto maior parece ter sido na demanda de atendimento, que diminuiu em meados de março, o que acaba compensando a ligeira queda nas doações.

Para doar

As mães que desejam doar leite materno para ajudar na recuperação dos bebês hospitalizados podem estocar o leite em vidros de café solúvel esterilizados e doá-los para os bancos de leite humano. O leite deve ser conservado no congelador por até 10 dias e, caso seja descongelado, não pode ser congelado novamente.
A Maternidade Escola destaca que as interessadas em ajudar devem contatar o número (85) 3366-8509 para realizar o cadastro, após o qual uma equipe do hospital poderá ir até a residência da pessoa para coletar a doação. A unidade hospitalar dispõe de motorista para ir buscar o leite doado em qualquer bairro dentro da cidade de Fortaleza. A unidade também oferece assistência a mães que têm dificuldade no aleitamento.
Os requisitos para ser doadora de leite materno são: • Estar amamentando o próprio filho; • Estar saudável; • Estar com os exames laboratoriais em conformidade e não estar tomando medicação incompatível com doação; • Ligar para a Maternidade Escola e fazer o cadastro, após o qual serão repassadas todas as orientações necessárias.

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