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Fortaleza, Ceará, Brasil.

Fortaleza 294

Viagem pelo tempo por entre avenidas e figuras marcadas na nossa História

segunda-feira, 13 de abril 2020

Por Fellipe Málaga

Em tempos de normalidade, diferentemente do que estamos vivendo agora, acometidos pelo novo coronavírus (covid-19), milhares de pessoas circulam por Fortaleza todos os dias: de ônibus, em veículos próprios, usando o metrô ou mesmo a pé. O fato é que toda essa gente enfrenta o calor escaldante que assola a Terra do Sol, as chuvas (in)esperadas no inverno, dentre tantos outros temores que são comuns às megalópoles, em uma cidade cada vez mais apressada, um povo refém dos ponteiros do relógio, horários a cumprir, focado em seus aparelhos celulares, bombardeado por milhões de informações a cada segundo.
O tempo parece curto para reparar no que se passa ao redor, para olhar pela janela e perceber que, diariamente, cada uma dessas pessoas transita por sobre a História. Sim, grande parte das vias fortalezenses – das minúsculas vielas às quilométricas avenidas – ajuda a retratar a real biografia da cidade, sendo essencial para transformá-la, ao longo dos séculos, em uma das principais capitais do Brasil.


Obviamente que estamos falando dos personagens imortalizados em ruas e avenidas de Fortaleza, personalidades comentadas praticamente o tempo inteiro, mas que poucos conhecem a importância das tais.
“Fernando Pessoa dizia que “se queres ser universal, fala da tua aldeia…”. A frase é extremamente verdadeira, mas para falar da sua aldeia – e alcançar o mundo – é preciso conhecer a história dela. E temos uma história rica de inúmeros grandes nomes aqui no Ceará. Isso sem esquecer dos tantos desconhecidos que, anonimamente, com suas mãos, pés e almas, ajudaram a construir, junto a estas grandes personalidades, a base sobre a qual caminhamos hoje”, é o que garante o professor, historiador e escritor Napoleão Maia.
A Avenida Domingos Olímpio eu sei onde fica, mas quem foi ele? O que fez de tão importante esse tal Antônio Sales para ser homenageado? Nepomuceno – quem foi esse Alberto? Bilhar eu só conheço a mesa de sinuca…
Essas são algumas das personalidades genuinamente cearenses que farão parte dessa nossa viagem no tempo, um mergulho no passado para revelar aos presentes uma gente que será lembrada também no futuro.

Literatura pura
Uma das principais avenidas da capital cearense pode dar o luxo de ser considerada uma das mais poéticas do País. Cortando inúmeros bairros, a via emana cultura. Domingos Olímpio e Antônio Sales dividem o caminho de asfalto, mas na História somam riqueza e sabedoria. Os poetas e escritores, unidos por mais que uma grande rua, são personagens de enorme relevância à literatura cearense.
Domingo Olímpio é sobralense, nascido em 1851, e, dentre outras coisas, foi advogado, jornalista, parlamentar, além de romancista. O homem multifacetado, inclusive, morou nos Estados Unidos, onde secretariou missões diplomáticas. Mas o foco é sua importância para o cenário nacional. E munido de frases e sentimentos.


“O escritor em questão era um homem plural, virtuoso em diversas áreas relevantes à sociedade. Domingos, inclusive, comandou jornais importantes e escreveu Luzia-Homem, um clássico, que merecia ser lido por todos, principalmente nos tempos de hoje, onde a mulher luta bravamente pelo reconhecimento de sua fibra. Definitivamente, Olímpio é uma figura de enorme representatividade para a literatura cearense e nacional”, palavras do professor de Literatura e poeta Bruno Maia.


Luzia-Homem é o grande marco na trajetória de nosso personagem. Escrito no início do século passado (1903), a obra retrata a figura de uma mulher que possui no sangue a força do povo cearense, expressando a valentia de uma donzela-guerreira, regida de garra, coragem e, acima de tudo, amor. O trabalho é um belo exemplo do naturalismo regionalista. De tão consagrada, a obra foi adaptada para as telonas, lançada em um longa metragem estrelado por Cláudia Ohana, em 1988.

Metamorfose
urbana
Domingos Olímpio, em uma metamorfose urbana, se “transforma” em Antônio Sales após o cruzamento com Visconde do Rio Branco. Pode soar como um devaneio, mas é exatamente assim que acontece, pelo menos quando falamos de ruas. Essa transmutação nos leva a essa figura ímpar da literatura nacional.
Antônio Sales nasceu em 1868, numa localidade – hoje inexistente – chamada Parazinho, em Paracuru. Poeta e romancista, o homem de origem humilde deixou um legado importantíssimo para a cultura cearense e nacional, principalmente por ser o idealizador da Padaria Espiritual, movimento literário que retratava o provincianismo do fortalezense de forma irônica, até sarcástica. Alguns dos demais membros da agremiação também estão imortalizados pela Capital por meio de escolas, ruas e até bairros: Adolfo Caminha, Antônio Bezerra, Lívio Barreto, Henrique Jorge, Juvenal Galeno e Rodolfo Teófilo.


“Um homem revolucionário, um paracuruense diferenciado, de pensamento a frente de seu tempo, um cidadão que sabia exatamente expressar sua ‘cearensidade’ através das palavras. Sales era o padeiro-mor, responsável por recriar elementos da nossa cultura, um sujeito valorizado pelo intelecto privilegiado. Não à toa era amigo pessoal do grande Machado de Assis. Seu legado ficará eternamente expressado em cada canto de Fortaleza, realçado pela homenagem em forma de avenida. Nada mais justo do que tê-lo em evidência todos os dias em uma das principais vias alencarinas”, enfatiza Bruno Maia. 

Bem-vinda, arte…
A aposentada Clotilde Marinho mora no bairro Meireles há 28 anos, mais especificamente na rua Ana Bilhar. O sobrenome esquisito – que nada tem a ver com o famoso jogo chamado também de sinuca – aguçou a curiosidade da moradora, que só recentemente descobriu a importância da personagem de sua rua na História. “Eu não fazia ideia, moro aqui há tantos anos e nunca imaginei que o nome da minha rua homenageasse uma figura tão importante, de tanta fibra. Olha, vou dizer, fiquei muito feliz ao saber disso”, revela.


Dona Clotilde tem razão de se orgulhar. Ana Lopes de Alcântara Bilhar, nascida no Crato, é considerada um dos grandes nomes da educação no Ceará. Junto de sua irmã, Branca Bilhar – que era musicista – Ana fundou o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, voltado para mulheres, que funcionava onde hoje está o Colégio Militar. A instituição de ensino das irmãs Bilhar virou referência e ia muito além das tradicionais disciplinas, incentivando e valorizando arte e cultura.


Por falar em conceitos artísticos, lembramos de um dos principais nomes da música erudita brasileira: o fortalezense Alberto Nepomuceno. Nascido em 1864, o renomado músico ganhou notoriedade por protagonizar a primeira ópera verdadeiramente brasileira, o que era considerado, à época, deveras inadequado. Nepomuceno é tido como o “pai” do nacionalismo na música erudita brasileira. De sua mente fértil e ativa, saiu a composição do Hino do Estado do Ceará. O pianista e regente é retratado em uma relevante avenida no Centro de Fortaleza.
“Alberto Nepomuceno é um ícone musical, não só cearense, mas alguém reconhecido por seus feitos em todo o Brasil e também no exterior. O grande maestro nos ensinou que a música não tem língua específica, não possui limitações, música é vida, é sentimento, é arte, é alma. Alberto deixou uma lição propagada até hoje pelo mundo. Um orgulho tê-lo como conterrâneo”, explica o saxofonista Bergson Coelho, maestro e professor de música em Limoeiro do Norte.

Fibra e luta
Uma via no bairro Meireles, mas que tem enorme representatividade na História do Ceará. A rua nem tanto, seu nome sim: Silva Jatahy. O aracatiense nascido em 1842 foi um dos grandes responsáveis pelo fim da escravatura no Estado. O comerciante surgiu como uma das fortes lideranças da causa abolicionista e, junto com Chico da Matilde, o popular Dragão do Mar, dentre outras figuras, conseguiram paralisar as atividades no Porto de Fortaleza, evitando, assim, o desembarque dos escravos. Jatahy foi peça-chave na luta em prol do negro, fazendo do Ceará a primeira província do império a libertar seus escravos.


“Jatahy foi determinante naquele ato que fechou o porto cearense ao tráfico negreiro juntamente com outros valentes homens, heróis, visionários. Sem dúvidas um mártir nessa luta árdua e histórica, um dos nomes mais importantes ligados ao movimento abolicionista. Nada mais justo que reconhecer sua relevância, enaltecer a figura e homenageá-lo”, pontua Napoleão Maia.


Fortaleza é um verdadeiro almanaque contendo grandes histórias, um álbum repleto de imagens amareladas pela ação implacável do tempo – com figuras cada vez mais atuais no pensamento popular. Centenas de homens e mulheres que, com seus feitos, foram – e ainda são – imprescindíveis para valorizar a riqueza cultural nessa miscelânea de histórias, ideias e sentimentos guardados para sempre nos armários memoriais, nas gavetas do tempo, relembrados a cada dia sempre que um cidadão olha para as placas azuladas nas esquinas e rememora quem foram tais figuras. Um chão que – mesmo coberto de cimento, asfalto e gente – respira vida.

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