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Cloroquina: médico francês é alvo de controvérsia

domingo, 29 de março 2020

Enquanto diversos países discutem a utilização da cloroquina e da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus, um dos pioneiros no uso do medicamento no mundo, o médico infectologista francês Didier Raoult tenta convencer as autoridades quanto à eficácia da substância no tratamento da Covid-19. O método, no entanto, gera controvérsias na França, e o governo local fez restrições ao remédio até que mais testes comprovem resultados de sucesso diante da pandemia.


Diretor do Instituto Hospital Universitário Méditerranée Infection (IHU), na cidade de Marselha, o professor Raoult é microbiologista, especialista em doenças infecciosas e um dos médicos mais renomados da área. Filho de um militar e uma enfermeira, ele nasceu em 1952 em Dakar, capital do Senegal, se mudou com a família para Marselha em 1961 e, hoje, aos 68 anos, acumula diversos estudos e pesquisas, publicações e prêmios. Porém, a excelente reputação científica não impede neste momento que ele seja fortemente contestado por parte da comunidade médica.


Na última segunda (23), em entrevista à imprensa, o ministro da Saúde da França, Olivier Véran, limitou o uso da cloroquina a pacientes em estado grave de Covid-19 e estritamente com acompanhamento médico. Paralelamente a esta medida, o Alto Conselho de Saúde Pública desenvolveu um projeto para diferentes especialistas testarem a prática de Raoult em outros hospitais, antes de dar um veredito final sobre a utilização. Durante a semana, o tema movimentou debates no país, e Raoult esteve no centro das atenções. Diversos veículos de imprensa franceses publicaram reportagens mostrando os dois lados e fazendo um contraponto, com opiniões e análises de médicos, profissionais da saúde e políticos.


“Gênio ou charlatão?” Esta foi a forma como algumas manchetes, como as da BFM TV e da RFI, se referiram a Raoult. Até o visual com barba e longos cabelos brancos, mais parecido com o de um “roqueiro”, foi motivo de críticas. Além da dúvida quanto à real eficácia da substância contra o coronavírus, os maiores questionamentos são sobre o pequeno número de pacientes testados até agora e possíveis efeitos secundários tóxicos, como náusea, diarreia e até taquicardia e problemas cardiovasculares.


Procurado pela reportagem para falar sobre o assunto, Raoult gravou um vídeo divulgado pelo IHU para responder às principais perguntas feitas por jornalistas de várias nacionalidades. “Sobre a toxicidade, todo mundo está ficando louco. Isso se trata de mais um fantasma, que eu não sei de onde vem. Mas, enfim, a hidroxicloroquina (um derivado da cloroquina) já foi prescrita para milhões de pessoas, que tomam isso durante 30 anos. Isso é um veneno? É absolutamente uma ilusão. Justamente no momento em que a gente precisa dela, descobrimos que é um veneno? Isso é absolutamente surpreendente. Isso não faz sentido”, rebateu Raoult, que se mostrou satisfeito ao saber que outros países também estão testando e receitando o medicamento que ele tanto defende.


“Eu vejo que a FDA [Food and Drug Administration], nos EUA, que é uma organização extremamente séria, deu sinal verde para tratar os nova-iorquinos com a hidroxicloroquina e a azitromicina. Eu estou super contente que outras equipes queiram trabalhar com isso também, em Oxford, uma equipe na Tailândia quer fazer estudo de avaliação em 10 mil pessoas da profilaxia, os americanos, na Espanha também”.

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