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OMS desiste de testar cloroquina em tratamento de Covid-19

quarta-feira, 27 de maio 2020

A OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a cloroquina da lista de drogas que seriam testadas para tratamento da Covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus) no programa internacional Solidarity.

Foto: Secom/Governo do Amazonas

Na segunda (25), a entidade havia anunciado a suspensão dos testes com hidroxicloroquina, para avaliar a segurança do medicamento. Estudo publicado na revista médica inglesa Lancet com dados de 96 mil pacientes publicado na sexta-feira (22) indicava que as duas drogas, hidroxicloroquina e cloroquina, estavam relacionadas a maior mortalidade.

O uso das duas drogas é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, e na última quarta (20) o Ministério da Saúde alterou o protocolo para ampliar seu uso também por pacientes com sintomas leves de Covid-19. Até então, a permissão era para pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais.

Já os governos da França, da Bélgica e da Itália deixaram de usar a hidroxicloroquina no tratamento de pacientes de Covid-19 depois que a OMS anunciou a suspensão de seus testes com a droga para avaliar a segurança de seu uso em casos de infecção por coronavírus.

Na página do Solidarity na internet, que até sexta-feira passada relacionava a cloroquina como droga a ser testada, a OMS incluiu um asterisco com este aviso: “De acordo com o protocolo do estudo inicial, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram selecionadas como possíveis drogas a serem testadas no Solidariedade. No entanto, o estudo só foi realizado com a hidroxicloroquina; portanto, a cloroquina foi removida desta página como uma opção de tratamento listada em estudo”.

Em entrevista na última quarta (20), a entidade havia citado os dois medicamentos como objeto de estudos para o tratamento da Covid-19 no Solidarity -programa internacional coordenado pela organização em 245 hospitais de 18 nações, com cerca de 3.000 pacientes e 885 médicos envolvidos. A OMS disse à reportagem que não pode divulgar os nomes dos países participantes.

A organização afirmou que a cloroquina não chegou a ser testada desde que os experimentos começaram, em março. Questionada sobre a possibilidade de reintroduzir a cloroquina no programa após a checagem que está sendo feita na hidroxicloroquina, a entidade não havia respondido até as 11h30 desta quarta.

A revisão dos dados do Solidarity está sendo feita por um comitê independente, o DSMC (Conselho de Monitoramento de Dados e Segurança) por causa da forma como o experimento foi desenhado: um estudo randomizado duplo-cego.

Randomizado quer dizer que os pacientes são escolhidos de forma aleatória, o que evita que os resultados sejam afetados por viés na seleção. Os participantes são divididos em dois grupos —um recebe o medicamento a ser testado e o outro recebe um placebo (produto que imita o remédio, mas é inócuo).

As características dos participantes são controladas, para isolar depois o efeito da droga de outras eventuais causas.

Duplo-cego significa que nem o paciente nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o remédio e quem está tomando o placebo, precaução tomada para garantir que não haja interferências que prejudiquem as conclusões do estudo.

O DSMC está revisando os dados do estudo com a hidroxicloroquina do Solidarity e de outras pesquisas em andamento e já publicadas, e deve divulgar uma conclusão em meados de junho.

Os pacientes que haviam sido escolhidos para o estudo continuarão recebendo a hidroxicloroquina até o final do tratamento.
Segundo a OMS, embora a hidroxicloroquina e a cloroquina já sejam produtos licenciados para o tratamento de doenças autoimunes e malária, até o momento eles não demonstraram ser eficazes para pacientes com coronavírus, e por isso deveriam ser usados apenas em testes, sob supervisão.

A organização afirma que “alertou os médicos contra a recomendação ou administração de tratamentos não comprovados aos pacientes com Covid-19 e alertou as pessoas contra a automedicação com eles”.
“O potencial existe, mas são necessários muito mais estudos para determinar se os medicamentos antivirais existentes podem ser eficazes”, diz a OMS.​
*
OS ESTUDOS SOBRE USO DA CLOROQUINA CONTRA O CORONAVÍRUS
Estudo do francês Didier Raoult
Nº de pacientes: incerto / Resultados: Efeito positivo identificado em 20 pacientes. Entretanto, o estudo não foi realizado em duplo-cego, ou seja, não houve comparação com pacientes que receberam placebo. Além disso, seis voluntaríos que tiveram piora (um deles morreu) foram excluídos do estudo. O periódico que publicou a pesquisa afirmou que o estudo “não atendia aos padrões esperados, especialmente pela falta de explicações dos critérios de inclusão e triagem de pacientes”

Estudo no Amazonas
Nº de pacientes: 81 / Resultado: Benefício discreto no uso da dose baixa. O uso de dose alta aumenta o risco de alteração da frequência cardíaca (arritmia) e pode levar à morte. Pelo menos 11 pacientes do grupo que recebeu alta dose morreram

Manuscrito da Prevent Senior
Nº de pacientes: 636 / Resultados: inconclusivos. O estudo não tinha autorização do Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) para ser realizado quando os testes começaram a ser feitos. O estudo tem indícios de fraude. Além disso, a metodologia não correspondia aos padrões de pesquisa internacional e o próprio autor do estudo disse à reportagem que a forma como sua pesquisa foi feita impede que sejam tiradas conclusões sobre o uso da cloroquina contra o coronavírus

Estudo publicado no The New England Journal of Medicine
Nº de pacientes: 1.376 / Resultados: O estudo observacional (sem intervenção médica) analisou a administração de hidroxicloroquina sozinha ou associada a azitromicina em pacientes com coronavírus para saber se havia benefício para evitar morte ou intubação. Não houve. Entre os pacientes, 811 receberam hidroxicloroquina e 565 não receberam. No fim do estudo 232 pacientes haviam morrido, 1.025 receberam alta e 119 permaneceram internados. Durante o estudo, 346 pacientes morreram ou foram intubados. Segundo os autores, o resultado indica que não há benefício do uso da cloroquina para evitar intubação ou morte

Estudo publicado no Jama
Nº de pacientes: 1.438 / Resultados: O estudo observacional analisou dados de pacientes internados em 25 hospitais da área metropolitana Nova York entre 15 e 28 de março. Entre os pacientes, 735 receberam hidroxicloroquina e azitromicina (dos quais quase metade iniciou o uso das drogas antes ou de modo concomitante ao uso de ventilação mecânica), 271 só hidroxicloroquina, 211 só azitromicina e 221 nenhuma dessas drogas. Pacientes foram acompanhados até 24 de abril (45 ainda estavam hospitalizados). Pesquisa não encontrou redução de mortalidade por Covid-19 entre os que foram medicados com hidroxicloroquina (com e sem associação com azitromicina).

Estudos publicados no BMJ
Estudo 1 – Nº de pacientes: 150 / Resultados: O estudo randomizado e controlado foi feito com pacientes com quadro leve a moderado (somente dois casos eram graves) em 16 unidades de saúde da China. Entre os participantes, 75 receberam hidroxicloroquina mais o tratamento padrão. Os outros 75 foram submetidos somente ao tratamento padrão. Com testes PCR, os cientistas avaliaram se o Sars-CoV-2 persistia nos pacientes. Os resultados não apontaram que a hidroxicloroquina, aliada ao tratamento padrão, traga benefícios na eliminação do vírus do corpo da pessoa Estudo 2 – Nº de pacientes: 181 / Resultados: O estudo observacional analisou pacientes (84 que receberam hidroxicloroquina e 89 que faziam parte do grupo controle) com quadros severos de Covid-19, que necessitavam de ajuda com oxigênio para respirar, mas que não estavam em UTIs. Os cientistas analisaram a sobrevivência das pessoas sem a necessidade de internação em UTI. Os dados mostram similaridades de desempenho entre os grupos e efeitos adversos relacionados à hidroxicloroquina.

Fonte: Folhapress

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