32 C°

sábado, 4 de julho de 2020.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

aniversario

Mundo

Países reúnem especialistas para orientar vida pós-covid

segunda-feira, 29 de junho 2020

Pensando em como recuperar a economia e planejar o futuro após a pandemia de coronavírus, países como Espanha, Itália, França e Argentina reuniram especialistas em comitês de debates guiados por uma ambição: lançar bases para um novo mundo. Estão na pauta temas como a redução da poluição, o fim da violência contra a mulher e o enfrentamento das desigualdades sociais. A adoção das propostas que surgirem nesses grupos, porém, dependerá de aprovação dos governos.
Na Itália, o governo convidou o empresário Vittorio Colao para elaborar um plano de reconstrução, entregue no início de junho. Ex-chefe da gigante de telecomunicações Vodafone, ele montou um grupo de trabalho com 17 pessoas, incluindo ex-ministros, economistas e psicólogos, e chegou a 102 ideias. Em entrevista à mídia italiana, Colao disse que ficaria contente se ao menos 40 delas fossem adotadas. O plano inclui anistia fiscal, para estimular a formalização de empregos e negócios, e repatriação de recursos enviados irregularmente ao exterior, além de dar isenções fiscais em serviços prestados de forma digital, para estimular seu uso. Para conter a circulação de cédulas, sugere a retirada de circulação das notas de 200 e 500 euros, o que depende de consenso na União Europeia.
Outras propostas buscam oferecer estímulos para que indústrias italianas tragam de volta suas fábricas ao país e recomendam a criação de um fundo para a manutenção de museus, parques e outras atividades de entretenimento. Na França, o presidente Emmanuel Macron chamou grandes nomes da economia mundial para criar um conselho, incluindo Paul Krugman e Jean Tirole, vencedores do Nobel, e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA.
Ao todo, são 26 nomes, divididos em três grupos: clima, desigualdades e demografia, com a missão de entregar um relatório até dezembro. Macron usou tom épico ao anunciar o projeto. Disse que este é um momento de reinvenção total, inclusive dele mesmo. Uma das ideias debatidas é aumentar a taxação sobre combustíveis fósseis, e usar esse dinheiro em benefícios sociais. Trata-se de um tema polêmico no país. O avanço de uma taxa desse tipo, no fim de 2018, foi um estopim para os protestos dos chamados “coletes amarelos”, que fizeram atos contra Macron por semanas e o levaram a recuar.
Na Argentina, intelectuais elaboraram uma série de artigos, com apoio da Presidência, em maio. Compilado em um livro, o material traz mais reflexões para estimular o debate do que ideias práticas. Inclui críticas ao capitalismo e a defesa do papel do Estado. “A insegurança gerada pela mudança climática, pelo futuro do trabalho e as desigualdades de gênero crescem com a liberdade total do mercado”, escreve Alejandro Grimson, antropólogo, assessor do presidente Alberto Fernández e coordenador do projeto.
A iniciativa soma 28 pessoas, incluindo algumas ligadas à atual vice-presidente Cristina Kirchner e outras que foram críticas ao kirchnerismo. A presença de intelectuais de linhas antagônicas favorece um debate mais amplo, mas pode gerar constrangimentos aos governos.
Na Espanha, ganha força no grupo de discussão a defesa de uma reforma trabalhista apoiada pelo PP, hoje na oposição, e criticada por membros da coalizão de esquerda, hoje no comando. O país criou um conselho de planejamento com mais de cem nomes e a meta de elaborar um relatório em três meses. Batizado de “Espanha 2050”, reúne especialistas ligados a partidos de várias frentes, com dez temas, incluindo o combate ao desemprego estrutural, ao despovoamento rural e o uso de combustíveis fósseis.

Avaliação
Fernando Ribeiro Leite, professor de economia do Insper, questiona o papel do Estado como planejador central, capaz de fazer intervenções profundas. “Esse modelo foi importante no pós-Segunda Guerra, nos ajudou na industrialização, mas temos que assumir que vivemos em uma economia de mercado.” Outro ponto é que esses comitês não foram eleitos e podem ser acusados de falta de legitimidade. “É uma ideia legal e saudável, mas gera a sensação de uma sobreposição de funções. Será que os ministérios e o Legislativo não dão conta de pensar o país?”
Para a consultora de políticas públicas Florencia Ferrer, o planejamento estatal só funciona se a sociedade toda se engajar nas propostas. Ela cita os casos de Coreia do Sul, Chile, Colômbia e Uruguai, que tiveram avanços na educação, na economia e no combate à violência a partir de planos criados nas décadas passadas. “Em um país federal, há mais dificuldade em ter direção única. Mas tivemos avanços nas últimas décadas, com a redução da miséria, que foi fruto de direções dadas pelos governos de FHC e do PT.”

hoje

Mais lidas

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com