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Sanders desiste da corrida democrata, e Biden deve enfrentar Trump na eleição presidencial

quarta-feira, 08 de abril 2020

O senador Bernie Sanders, 78, anunciou nesta quarta (8) que desistiu de tentar ser o candidato democrata nas eleições presidenciais dos EUA de 2020.

Foto: Brenda Mcdermid

A decisão veio após a realização das primárias em Wisconsin, nesta terça (7). Sanders vinha de seguidas derrotas para Joe Biden, que deve ser o rival de Donald Trump na votação de novembro.
Falando ao vivo de Burlington, em Vermont, Sanders agradeceu a todos por criarem “uma campanha política com um movimento de base sem precedentes que teve impacto profundo em mudar a nossa nação”.

Relembrou que foi capaz de realizar uma campanha presidencial sem apoio dos “ricos e poderosos” -uma de suas bandeiras- valendo-se de 10 milhões de doações com média de 18 dólares por pessoa.

Sanders citou ainda uma frase -“Só parece impossível até que seja feito”- do ex-presidente da África do Sula Nelson Mandela, a quem chamou de “grande guerreiro pela liberdade”, para criticar o poder do establishment político e das grandes corporações, que segundo o democrata limitam os direitos dos seres humanos.

Todos teriam direito à saúde, condições de trabalho e salários decentes, ensino superior -independente da renda- e a viver num mundo com valores democráticos, livre de xenofobia, racismo e homofobia.

No discurso de despedida, Sanders bateu na tecla do acesso ao sistema de saúde. Segundo ele, já antes da pandemia de coronavírus, os americanos vinham percebendo que é necessário adotar um sistema de saúde unificado para todos ao invés do atual modelo de seguros privados. Com a pandemia, milhões de cidadãos perderam o emprego, o que significa a perda dos planos de saúde, acrescentou.

“Um grande número de desempregados se pergunta se pode pagar para ir ao médico sem ir à falência com a conta do hospital. A saúde é um direito humano, não um benefício para um empregado.”

Minutos depois, Biden se manifestou. “Conheço bem Bernie. Ele é um homem bom, um grande líder, e uma das mais poderosas vozes pela mudança em nosso país. É difícil resumir as suas contribuições para a nossa política em apenas um tuíte. Então não tentarei”, postou em uma rede social.​

“Juntos vamos derrotar Donald Trump. Mas também trataremos da crise do clima. Faremos o ensino superior acessível. E tornaremos o sistema de saúde disponível para todos. Não apenas reconstruiremos esta nação -vamos transformá-la. E peço a vocês que se juntem a mim”, completou.
Ainda faltam alguns detalhes para que o nome de Biden seja confirmado como o candidato democrata.

O ex-vice de Barack Obama tem atualmente 1.217 delegados nas primárias do partido e precisa chegar a 1.991 para assegurar matematicamente a vitória -mas, como não há mais ninguém na disputa, ele deve alcançar o número em breve.

Depois disso, o nome de Biden ainda precisa ser oficialmente confirmado pela convenção democrata, que está marcada para agosto -ela já foi adiantada uma vez por causa da atual pandemia de coronavírus.
Sanders foi o último competidor de peso a desistir em uma campanha que começou com mais de 20 nomes, ainda no ano passado.

Embora atue na política desde os anos 1980, ele apostou na imagem de nome de fora do sistema, principalmente por causa de suas posições consideradas radicais nos EUA.

Sob a bandeira da redução da desigualdade social, Sanders defende posições consideradas radicais nos EUA, defendendo que o Estado ofereça educação e saúde gratuitas para todos, aumente a taxação sobre bilionários e reforce a regulação do setor financeiro.

Sua postura teve apelo especialmente sobre os jovens e ganhou ecos no movimento progressista que se intensificou no Partido Democrata após as eleições legislativas de 2018, tentando levar a legenda mais para a esquerda.

Os EUA vivem uma boa fase de crescimento e de baixo desemprego -ao menos antes da chegada do novo coronavírus-, mas a renda das famílias não avança da mesma forma.

Com isso, casos de pessoas que não conseguem pagar a própria casa ou enfrentam problemas graves com gastos de saúde se multiplicam. O ressentimento de quem se sente ficando para trás foi bem explorado por Trump em 2016, e havia a expectativa de que Sanders pudesse se conectar a esse público.

Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, a derrota de Sanders demonstra um certo cansaço dos eleitores com o radicalismo. “Parte do eleitorado democrata rejeitou contrapor Trump com outro Trump do lado de cá”, avalia.

Consentino aponta também que Sanders teve dificuldade para provar a viabilidade de suas propostas, e que sofreu desgaste ao disputar a posição de nome progressista do partido com a senadora Elizabeth Warren.
Logo após o anúncio da saída, Trump atribuiu a derrota a Warren. “Bernie Sanders está FORA! Obrigado a Elizabeth Warren. Se não fosse por ela, Bernie teria vencido quase todos os estados na Super Terça”, publicou Trump logo após a desistência.

“Isso termina justamente como os democratas e o DNC [Comitê Nacional Democrata] queriam, o mesmo que o fiasco de Hillary Trapaceira. A turma de Bernie deveria vir para o Partido Republicano. Troquem!”, completou Trump.

No início das primárias, em fevereiro, o senador despontou como favorito e venceu em dois estados: New Hampshire e Nevada. Mas, na etapa seguinte, na Carolina do Sul, Biden começou a arrancada que o levou à vitória: ele venceu naquele estado apostando no voto dos eleitores negros.
Em seguida, o ex-vice de Obama foi o grande vencedor da Super Terça, em 3 de março, quando 14 estados foram às urnas ao mesmo tempo.

Sanders, no entanto, conquistou a Califórnia e mais cinco estados, o que lhe deu fôlego para seguir com a campanha enquanto outros nomes de peso, como Elizabeth Warren e Michael Bloomberg, desistiram.

Biden recebeu apoio de quase todos os desistentes importantes, como Bloomberg e Pete Buttigieg, além de governadores e prefeitos. Sanders, por sua vez, teve endosso de apenas dois ex-pré-candidatos, incluindo o prefeito de Nova York, Bill de Blasio.

Depois da Super Terça, a disputa democrata virou um duelo entre Biden e Sanders. Mas a campanha presidencial em si ficou em segundo plano com o avanço do coronavírus. Comícios e eventos com os candidatos foram desmarcados, e algumas primárias, adiadas.

Filho de judeus, Sanders nasceu no Brooklyn, em Nova York, em 1941. Nos anos 1960, formou-se em Ciência Política na Universidade de Chicago. Na cidade, ele se envolveu no movimento pelos direitos civis, que sacudiu os EUA naquela década.

Na década de 1970, Sanders se tornou ativista contra a Guerra do Vietnã e tentou ser governador de Vermont, estado para o qual se mudou, por duas vezes.

A primeira vitória eleitoral veio em 1981, quando foi eleito prefeito de Burlington. Depois, foi deputado federal (1991-2007) e senador (desde 2007). No Congresso, virou um símbolo por questionar cortes em programas sociais e guerras, mas aprovou poucos projetos.

Embora não faça parte do Partido Democrata -ele é um independente-, Sanders disputou as primárias presidenciais pela legenda também em 2016. Naquela eleição, ele também ficou em segundo lugar, perdendo a nomeação para Hillary Clinton. No entanto, a disputa foi mais longa: ela só obteve a vitória em junho.

Um dos fatores que levaram a ex-primeira dama a vencer naquele ano foi justamente o apoio dos negros, que naquela ocasião não foram atraídos pelo discurso de Sanders.

Fonte: Folhapress

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