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Mundo

Uruguai: famílias de desaparecidos deixam as ruas

quinta-feira, 21 de maio 2020

Em 20 de maio de 1996, debaixo de garoa, um grupo de pessoas saiu às 19h de uma pequena praça entre a rua Jackson e a avenida Rivera, em Montevidéu, pegou a avenida 18 de Julho, a principal da capital uruguaia, e seguiu até a praça Liberdade. Caminhando lado a lado, sem dizer nada, prestavam suas homenagens e devolviam ao Estado o mesmo que recebiam quando pediam pela verdade sobre os desaparecidos durante a ditadura (1973-1985): o silêncio.
Rafael Michelini, 61, andava ao lado da mãe, lembrando o pai, um dos fundadores da coalizão de esquerda Frente Ampla. No mesmo dia, 20 anos antes, Zelmar Michelini foi assassinado no dia de seu aniversário pela Operação Condor em Buenos Aires, ao lado de outro político uruguaio, Héctor Gutiérrez Ruiz, e de dois ex-guerrilheiros. Os corpos apareceram logo depois, em um carro. “Ao fazer a marcha em silêncio, se somaram todas as forças de esquerda, gente dos partidos Blanco e Colorado, que de alguma maneira também foram vítimas, queriam a verdade, e as igrejas se uniram a nós. Foi emocionante”, lembra Rafael.
O encontro de 1996, divulgado no boca a boca, foi a primeira Marcha do Silêncio realizada por familiares de desaparecidos políticos do Uruguai. Nos anos seguintes, a multidão foi crescendo. Em 2019, com uma chuva torrencial, um mar de guarda-chuvas e gente encheu quadras a perder de vista. Às 19h deste 20 de maio, pela primeira vez em 24 anos, a praça em homenagem aos desaparecidos na América estará vazia, assim como a avenida 18 e a praça Liberdade. Os riscos do novo coronavírus obrigaram a Marcha a migrar para a televisão e para as redes sociais na sua 25ª edição.
Durante o dia, fotos de desaparecidos foram colocadas na praça Liberdade, com transmissão ao vivo nas redes sociais do grupo de mães e familiares. Os retratos também apareceram na Avenida Itália. Às 19h, um vídeo deve ser transmitido em dois canais de TV, e pela internet. Os nomes dos 197 desaparecidos, que encabeçam as marchas em cartazes carregados pelas famílias, irão aparecer nos retratos feitos pelo projeto Imagens do Silêncio. O hino nacional uruguaio – dos versos “tiranos temblad” (tiranos, tremei) – será o final, como nas ruas.

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