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No início da pandemia, Brasil teve taxa de contágio maior do que as de Itália e França

terça-feira, 04 de agosto 2020

Um estudo publicado na última sexta-feira (31) na revista Nature Human Behaviour apontou que a taxa de contágio (R0) do Sars-CoV-2 no Brasil nos primeiros três meses da pandemia foi de 3, ou seja, cada pessoa infectada contaminava outras três.

Reprodução

Essa taxa, segundo os autores, foi ligeiramente maior do que a encontrada em outros países severamente afetados pela pandemia, como Espanha (2,6), França (2,5), Reino Unido (2,6) e Itália (2,5).

Nos países europeus, as medidas de contenção e isolamento foram bem-sucedidas em achatar a taxa de incidência e diminuir o R0 para abaixo de 1, enquanto no Brasil a curva de incidência de casos diários continuou a subir.
Além disso, o avanço da pandemia foi dos grandes centros em direção às cidades menores, com os quatro principais epicentros, representando 49,2% dos casos e 61,5% do total de óbitos, sendo São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas.

Os dados são resultado do primeiro grande estudo epidemiológico de Covid-19, realizado por cientistas do Centro de Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde, na sigla inglês), parceria da Universidade de São Paulo com a Universidade de Oxford, entre outras instituições, e recebeu apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) e de agências internacionais.

Os pesquisadores analisaram dados de 514.200 casos confirmados de Covid-19 retirados do Portal Covid-19 do Ministério da Saúde desde o primeiro caso reportado, em 26 de fevereiro, até 31 de maio, divididos em 4.196 municípios, correspondendo a 75,3% do total de municípios no país.

Virologista e principal autor do estudo, William Marciel de Souza realiza sua pesquisa decpós-doutorado em conjunto na Universidade de Oxford e na USP. Ele explica que a alta incidência de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no país neste ano em comparação com anos interiores é a principal ferramenta para avaliar a evolução e disseminação da pandemia no país.

Segundo ele, os casos de SRAG sem agente etiológico definido reportados no Sivep-Gripe aumentaram 8,5 vezes em 2020. “Esse aumento foi desproporcional comparado aos outros anos, o que possivelmente indica que ocorre diagnóstico dos casos abaixo do esperado -e não subnotificação- devido à falta de insumos laboratoriais”.

Para o pesquisador, a vigilância no sistema do ministério é bem ativa e é pouco provável que o vírus estivesse circulando de maneira silenciosa no país antes do primeiro caso notificado.

O país falhou em entregar os 46 milhões de testes prometidos. Sem os testes RT-PCR, considerados padrão-ouro para detecção do vírus, o diagnóstico laboratorial de Covid-19 não pode ser completado, embora outros métodos diagnósticos, como a avaliação clínica do paciente, podem servir para inserir um novo caso de SRAG tanto no e-SUS VE (casos leves) quanto no Sivep-Gripe (internações e óbitos).

Avaliando os casos de Covid-19 resultantes em internações ou óbitos (67.180 casos reportados no Sivep-Gripe), os cientistas encontraram que a média de idade dos pacientes internados foi de 59 anos, e os homens representaram mais de 57% do total de casos e 59% dos óbitos.

Em relação aos óbitos, idade igual ou superior a 50 anos representou 85% dos casos.

As comorbidades mais frequentes nos pacientes hospitalizados com Covid-19 foram doenças cardiovasculares (66,5%) e diabetes (54,5%). Cerca de 84% dos casos reportados no Sivep-Gripe apresentavam pelo menos uma comorbidade.

“É importante ressaltar que mais de 90% dos casos reportados no Sivep-Gripe referem-se a casos graves ou que foram hospitalizados. O Sars-CoV-2 pode causar sintomas parecidos ao de um resfriado, mas em uma parcela [da população] causa uma doença mais grave, a Covid-19, então esses dados são de uma fração da população que evoluiu para casos mais graves da doença”, explica de Souza.

Além disso, havia a suspeita de correlação entre renda per capita elevada e maior incidência de casos confirmados de Covid-19 por diagnóstico RT-PCR, associados ao acesso de uma minoria da população a laboratórios particulares, em comparação com a dificuldade e escassez do serviço de saúde em áreas cuja renda per capita é menor.

Para testar essa hipótese, os autores avaliaram informações de renda per capita na região metropolitana de São Paulo e casos de SRAG em relação aos casos confirmados de Covid-19, com base no endereço domiciliar de cada caso reportado.

O teste estatístico demonstrou uma associação entre o diagnóstico de Sars-CoV-2 e renda per capita, sugerindo um fator socioeconômico importante na confirmação de casos de Covid-19 relativo ao acesso a serviços diagnósticos.

A região central da cidade de São Paulo concentrou maior incidência de diagnósticos confirmados de Covid-19 nas primeiras semanas epidemiológicas ao mesmo tempo que apresentou renda per capita acima de R$1.150 mensais, enquanto houve uma maior densidade de casos de SRAG sem etiologia definida nas regiões do extremo sul, sudoeste e nordeste da região metropolitana, que em geral concentraram renda per capita inferior a R$450 por mês.

Essa discrepância diminuiu conforme as semanas epidemiológicas avançaram. “Isso foi um reflexo do maior acesso à população aos testes diagnósticos na região metropolitana de São Paulo, não indicando, portanto, um salto na incidência da Covid-19 nessas áreas”, afirma de Souza.

As principais dificuldades encontradas na pesquisa, no entanto, foram a falta de centralização e padronização dos dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

Primeiro por uma própria inconsistência da base de dados utilizada: cerca de um mês antes do primeiro caso reportado de Covid-19 no país, o ministério havia criado um portal para notificar todos os casos -leves, moderados e graves- da doença chamado de REDCap. Esse portal foi utilizado até o dia 27 de março, quando foi encerrado.

A partir desta data, o governo passou a utilizar dois sistemas distintos: o e-SUS VE, para notificação de todos os casos leves de maneira agregada -isto é, sem informações detalhadas dos infectados-, e o Sivep-Gr.

Como conclusão, o estudo afirma ser o primeiro a avaliar e contextualizar de maneira sistemática a pandemia no país, sendo ainda preciso aumentar a capacidade de diagnóstico para acompanhar a transmissão do Sars-CoV-2.
Até o momento, afirmam os autores, a mitigação, e não supressão da pandemia foi alcançada, e isso levou a um número elevado de mortes que poderia ter sido evitado se os sistemas de saúde estivessem melhor preparados.

Fonte: Folhapress

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