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Nacional

Pandemia: Jair Bolsonaro atropela ações de hospitais

quarta-feira, 25 de março 2020

Ao defender o isolamento só daqueles do chamado grupo de risco, como idosos e portadores de comorbidades durante a epidemia da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atropelou de maneira desastrada algo que alguns membros da comunidade médica no Brasil já vêm discutindo nos bastidores.
Bolsonaro disse que os mais jovens, inclusive crianças, deveriam voltar a circular, a trabalhar e ir à escola, e que o isolamento deveria restringir-se às pessoas vulneráveis.


Alguns profissionais na linha de frente do enfrentamento da epidemia argumentam que isso seria catastrófico nesse momento, quando o país ainda se prepara para o aumento do número de casos.
Mas também uma possibilidade a ser discutida mais à frente, desde que algumas medidas fossem adotadas antes e premissas, consideradas.
A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), por exemplo, condenou a fala do presidente nessa quarta (25) e afirmou que, com os casos em franca ascensão e o sistema ainda se preparando, o isolamento é a “recomendação inequívoca” no momento.


“É inquestionável que se faz necessário medida para evitar o colapso total da economia e essas medidas precisam ocorrer de forma responsável”, disse a Amib em nota. A entidade acrescentou que apoiará ações do governo no sentido da liberação “no momento correto”.
Segurança
Em três dos países que já têm dados suficientes para estabelecer de forma mais segura o perfil etário dos mortos pelo vírus (China, Espanha e Itália), os óbitos de pessoas abaixo dos 40 anos não supera 0,3% dos infectados. A taxa só sobe para ao redor de 1% para aqueles entre 50 e 59 anos, para depois aumentar rapidamente entre os mais velhos.


Os três países têm percentuais de pessoas acima de 65 anos maiores do que o Brasil (12%, 19% e 23%, respectivamente, ante 10%), o que deve levar, proporcionalmente à população, a mais mortos entre eles.
Para se ter segurança de que a divisão etária no Brasil seguirá o mesmo padrão desses países, porém, seria necessário esperar por uma base maior de óbitos que sustente essa premissa.
Outro ponto fundamental a ser atacado antes de se considerar qualquer liberação parcial dos mais jovens, segundo especialistas, seria massificar o número de testes para a Covid-19, algo que a Coreia do Sul fez com sucesso –a China também, embora em menor escala–, o que permitiu modular os impactos econômicos de maneira mais eficiente.


Ao identificar com mais exatidão onde os focos da doença se concentravam, foi possível deixar que outras regiões e comunidades inteiras pudessem circular e trabalhar mais livremente.
No Brasil, só a partir desta semana o Ministério da Saúde passou a priorizar a importação e o aumento, em massa, do número de testes –algo que vem sendo considerado um dos erros imperdoáveis da pasta até aqui no planejamento contra a epidemia.


Antes que os testes ocorram para valer, é impossível saber até se motoristas de ambulância, policiais e caixas de supermercado estão infectando outras pessoas.
Mas o ponto prioritário a considerar é o front de atendimento aos doentes. Acabar agora com o isolamento, como quer o presidente, provocaria estragos irreparáveis.

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