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Opinião

A Fome

segunda-feira, 15 de julho 2019

“AFome” é o nome que dá título à primeira obra ficcional do autor Rodolfo Teófilo, publicada em 1890, e que retrata de modo detalhado a seca no Nordeste, bem como o rastro de miséria e de doenças que espalha por onde se instala.
Conforme assinala o prefaciador, Lira Neto, parte da crítica considera o livro “A Fome”, a “obra inaugural do grande ciclo de literatura sobre as secas no Nordeste do Brasil”. E atesta ser “um livro profundamente amargo”.
“A Fome” relata a saga de Manuel de Freitas e de sua família, uma das mais antigas e importantes do Sertão, a qual se vê obrigada a se mudar para Fortaleza, em decorrência dos terríveis efeitos da seca de 1877.
A fortuna do protagonista, empregada em gado e escravos, teve de ser vendida para garantir o sustento mínimo de sua família, embora fossem obrigados a emigrar para Fortaleza, em uma caminhada sofrida, lenta, sedenta e faminta, que os faria se deparar com a morte de tantas pessoas que não conseguiram concluir o mesmo percurso, quedando-se no meio do caminho, servindo de banquete para os urubus.
Rodolfo Teófilo descreve, com detalhada crueza, a fome e a miséria; a morte e a decomposição dos corpos; os comerciantes de escravos que se aproveitavam para lucrar com a compra de escravos dos senhores falidos; os funcionários públicos corruptos encarregados de distribuir rações para os flagelados, usando e abusando de seu poder…
Manuel de Freitas, acima de tudo, era um homem honrado e empenhado em salvar a família daquele quadro dantesco. E assim partiu para Fortaleza, com a esposa e quatro filhos, em uma longa caminhada a pé, desafiando a fome e a seca, lutando para encontrar água ou alimento capazes de garantir-lhes a sobrevivência.
Dentre as passagens marcantes, estão o recém-nascido encontrado agarrado à mãe morta, a quem tenta salvar; a caravana de retirantes que perdera o “senso íntimo”, deixando-se “dominar pelas necessidades da animalidade”, uma “onda de infelizes, que a perversão moral havia reduzido somente ao instinto da besta”.
“A Fome” é um livro duro, mas para nos servir de grande reflexão, pois retrata o nosso passado, o nosso presente e, ao que tudo indica, o nosso futuro em um mundo de miséria, que vai das necessidades vitais básicas à espiritual e moral.
“Os nossos estadistas amam a encenação. Os legisladores dão às leis a maleabilidade da cera. São feitas para serem interpretadas à vontade do governo. E se é em matéria eleitoral, então, é um verdadeiro escândalo”.
Como vemos, quase nada mudou.

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