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Opinião

O capitão em seu labiritno

quarta-feira, 25 de março 2020

“O medo da morte está convertendo os neoliberais em keynesianos”. O humor mórbido que acompanha os debates nas academias sobre a macroeconomia mundial, em tempos de coronavírus, ilustra bem os desafios dos tempos presentes. Nos Estados Unidos, apesar das falas desencontradas de Trump, o Congresso analisa um pacote entre US$ 2 trilhões e US$ 2,5 trilhões para amenizar os efeitos da pandemia. Algo em torno de 10% do PIB americano. Ontem, o parlamento da Alemanha aprovou um pacote de medidas de cerca de R$ 6 trilhões ( aproximadamente 1,1 trilhão de euros ), destinados ao enfrentamento do coronavírus. A Espanha já decidiu liberar 200 bilhões de euros para socorrer os infectados e a economia.
Em carta ao G-20 – Argentina, África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, EUA, Índia, Indonésia, Reino Unidos, Japão, México, Rússia, Turquia e União Europeia – o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, alertou os chefes de Estado e de governo do grupo, portanto ao próprio Jair Bolsonaro, que o mundo pode ser atingido por uma pandemia de proporções apocalípticas. “Peço aos líderes do G-20 que considerem um pacote urgente, de grande escala, de trilhões de dólares”, pediu Guterres, para ponderar, em seguida, que esse dinheiro precisa chegar às pequenas empresas, trabalhadores e famílias. Isso inclui perdão de dívidas, incentivos fiscais, queda de taxa de juros, créditos e apoio a salários.
Enquanto isso, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, de quem se esperava uma liderança ágil, firme e harmônica desse processo, se engalfinha com os 27 governadores, prefeitos, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e com a maioria dos brasileiros. Solitário em seu gabinete, deixou a pandemia se assentar no País e desautorizou a reconhecida eficiência do seu ministro da Saúde, Luiz Mandetta. Contrariando a experiência mundial e as recomendações da Organização Mundial da Saúde, Bolsonaro quer romper o isolamento social em quase toda a sua dimensão. Ninguém desconhece a importância do abastecimento, do mercado de trabalho e da segurança. Exatamente por isso, o País precisa de um comando harmônico e consistente. Lamentavelmente, o presidente Jair Bolsonaro prefere a intriga, o destempero, a deselegância e o seu espetáculo diário na porta do Palácio da Alvorada, onde, numa linguagem imprópria para quem empunha cetros e habita palácios, destrata a Língua Portuguesa e ofende a razão.
Mas, de algum modo, já sabemos que aquilo que o presidente afirma pela manhã, pode não valer à tarde. Perdido em seu labirinto, Jair Bolsonaro demonstra, a cada dia, que a sua proclamada fé em Deus fica a cada dia mais distante da vida. Como um espírito que fugiu das tela de Pieter Bruegel, Bolsonaro parece proclamar o triunfo da morte.

JORGE HENRIQUE CARTAXO
JORNALISTA

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