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Opinião

Uma cilada política da Covid-19

segunda-feira, 23 de março 2020

(Brasília-DF)
Em 23 de janeiro deste ano, o mundo ocidental ficou alarmado quando a China ampliou a quarentena na região de Wuhan, uma cidade com 11 milhões de habitantes, por conta da Covid-19. Naquela oportunidade, com o fechamento das cidades, muitos diziam que só numa ditadura aquilo seria possível.
Agora, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) avalizando tudo o que é feito por lá e com o estrago que foi na Itália e na Espanha, o mundo democrático está confrontado com a praticidade de um governo não se curvar às garantias individuais. As cidades pelo mundo ocidental já começam a fechar suas cidades e serviços. Algo dramático, inegavelmente.
No Brasil, isso está gerando uma crise federativa sem precedentes. O presidente Jair Bolsonaro se perdeu nessa situação. Não é fácil. Além de o presidente não ter um histórico como gestor, veio sua decisão inicial de tratar o assunto de forma menor e ter lutado contra evidência científicas. Uma crise desse tamanho aliou-se ao fato de que os problemas são locais, apesar da urgência nacional e internacional. Já virou batido dizer que as pessoas vivem nas cidades e não na União.
A crise federativa foi avançando durante a última semana. O presidente Bolsonaro preferiu o embate aberto com os governadores dos maiores estados do Brasil e da Região Nordeste, especialmente, o que não já não seria pouco.
Num momento em que a figura pública do Executivo mais relevante não tem sido o presidente da República, mas sim o ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, foi destacado pelo próprio que seria uma boa ideia, ele colocou como premente, o adiamento das eleições municipais de 2020; segundo ele, para se evitar a politização sobre o novo coronavírus.
Mandetta falou isso a prefeitos durante uma videoconferência com a presença do presidente Bolsonaro, na sede do Ministério da Saúde, no domingo (22). É bom lembrar aos desavisados que há dias, nas redes sociais, vários agentes políticos defendem o uso do fundo eleitoral para fazer o enfrentamento do novo coronavírus, mesmo depois que os congressistas que patrocinam o orçamento impositivo decidiram destinar R$ 8 bilhões para os setor de saúde.
Quem conhece o mundo da política, sabe muito bem que a fala do ministro Mandetta, ao lado de um Bolsonaro que anda sem forças para defender ações de união nacional, faz muitos crerem que foi uma clara combinação dos agentes governistas.
A iniciativa colocada por Mandetta funciona como uma tábua de salvação para um discurso político, a calhar para todo um projeto de poder, que vive o seu pior momento. Os prefeitos, há anos, defendem, no bojo de qualquer reforma política, que se prega no Congresso, a chamada unificação das eleições, com prorrogação de mandatos. Os políticos, em geral, viam isso com bons olhos, mesmo em época de reeleição, pois na época do financiamento privado caía bem. Economia. Agora, com o Estado bancando eleições seria presunçoso imaginar que o cenário do passado se reforçaria, hoje.
Os congressistas que, em tese, teriam um ano curto, e frente a urgência de votações importantes que já estavam na fila antes da crise do novo coronavírus, é pouco crível que esse assunto pudesse engrenhar como se colocou no último final de semana.
O presidente da República, que tenta sair das cordas, apesar de negar, que não tem nem um partido político, ganharia muito com a prorrogação dos mandatos ou ganharia mais a sociedade? No momento atual, quando uma combinação de interesses dessa monta surge, obriga que os agentes políticos e econômicos usem mais da prudência e da chamada razoabilidade. A dúvida é saber qual a melhor proporção.
O novo coronavírus já nos deixava perplexos com seus efeitos de saúde pública e mais essa O que mais virá? Boa pergunta.

GENÉSIO ARAÚJO JÚNIOR
JORNALISTA

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