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Colunista - Sebastião Nery

Mikonos, a ilha de Jaqueline

terça-feira, 16 de julho 2019

 

Foi aqui que Jacqueline Kennedy começou a trocar de casa branca: a Casa Branca de Kennedy pela casa branca de Onassis. Não teria sido mesmo fácil resistir aos encantos do fascinante iate de Onassis, pousado nas águas muito azuis, embaixo dos penhascos de terra muito escura, com as casas e igrejas inteiramente brancas lá em cima e um armador petrolífero, pequeno, feio e bilionário, resolvido a arrematar a mulher do presidente dos Estados Unidos.
As ilhas gregas são promontório de pedras cercadas de mar e história por todos os lados. Nós, baianos, nos orgulhamos das 365 igrejas de Salvador, uma para cada dia do ano. Mykonos, uma ilhazinha de 16 quilômetros de comprimento, 11 de largura (a metade de Itaparica), um punhado de habitantes (e centenas de milhares de turistas todo ano), tem mais de 500 igrejas, quase todas branquíssimas, com suas cúpulas e telhados circulares pintados de azul ou vermelho forte.
A mais famosa de suas igrejas, uma das mais fotografadas do mundo (esta em todos os cartões postais da cidade) a “Paraportiani”, é um imenso bolo de noiva, todo branco e redondo, cinco igrejas numa só, quatro embaixo e uma em cima. Haja devoção.
Duas outras marcas da ilha: os moinhos e os pombais, que os habitantes constroem em cima das casas e no alto das escarpas, para enfeitarem (e comerem). A “ilha branca” é um presépio. E tem uma coisa raríssima nestes mares azuis empedrados: praias. A areia não é branca como os lençóis estirados da costa brasileira, mas praias de areia cinza, ocre, meio grossa.
Jaqueline tinha razão: traição por traição, que fosse aqui, com cara e cheiro de paraíso.
Mykonos só existe por causa de uma ilhota vazia, “onde ninguém mora mais” (como na bela canção de Lula Freire, inesquecível na voz de Elizete Cardoso): Delos, a ilha-sagrada de Apolo.
Durante mil anos, Delos foi o centro político e religioso do Mar Egeu. E Mikonos, a meia hora de barco, seu porto e infra estrutura. Com quatro quilômetros quadrados, nenhuma casa, nenhum habitante, Delos não é uma cidade fantasma porque aqui mora Apolo, o mais charmoso dos deuses da antiguidade, deus da luz, da verdade e da beleza.
Conta a mitologia (a história vestida de lenda) que Leto, namorada de Zeus, o senhor do universo, estava grávida de Apolo e Artemisa, mas Hera, a mulher de Zeus, mandou expulsá-la de todos os lugares. Zeus pediu a Poseidon para resolver o problema. Ele bateu seu tridente no mar e de lá surgiu a ilhote rochosa, Delos, onde nasceram Apolo e Artemisa, a deusa da caça e da virgindade.
Como na história, a mentira costuma ser mais poderosa do que a verdade. Mas a história está aqui, em pedra, mármore e mistério. Há restos de construções de três mil anos antes de Cristo. Na época “micenica” (1580 a 1200 antes de Cristo) houve uma importante urbanização na ilhota. No ano 700 (antes de Cristo) Delos já era o mais famoso culto a Apolo. E virou um centro comercial. No século VI (antes de Cristo) o grego Persistratos, achando que haver mortes em Delos era um sacrilégio, mandou tirar daqui todos os túmulos. E logo depois proibiram nascer e morrer aqui, expulsando para a Ásia toda a população (426 antes de Cristo).
Apesar disso, como era uma encruzilhada marítima entre três continentes, Delos tornou-se um centro mercantil, sobretudo de escravos: os romanos chegaram a vender mil escravos por dia. Embaixo das barbas de Apolo. O castigo veio logo: Mitridates, rei de Pontus, atacou a ilha (que era romana), matou todos os 20 mil habitantes. E arrasou templos e monumentos.
Mesmo assim, pelo que sobrou, dá para ver a poderosa civilização que eles tinham construído, em Delos e também em Mykonos (sobretudo depois das escavações que a Escola de Arqueologia da França começou em 1873). Praticamente toda Delos é coberta de ruínas, algumas ainda belíssimas, como as pilastras, colunas e capitéis dos templos, os cinco leões de mármore com as patas estendidas, as casas de Dionisius e de Cleopatra (a outra), água corrente embaixo das casas, canalizada.
Tudo monumental, como se fossem numerosas catedrais jogadas no chão. Aqui mandaram fenícios, gregos, romanos, turcos, e cada um foi carregando seus pedaços de riqueza e de história.
Mykonos, ao lado, também sofreu o furor da loucura humana. Quando Delos era “porto livre” dos romanos, de 166 antes de Cristo até a destruição de Mitridates em 88 (antes de Cristo), também era rica. Passou séculos esquecida, até que em 1207 Veneza tomou e entregou aos irmãos Ghisi, cujo nome e brasão estão na entrada da catedral católica.
Em 1537, os turcos de Barbaroxa, (o império Otomano), tomaram a Grécia toda, Mykonos e Delos, até que, na guerra da independência grega em 1822, duas mulheres valentes comandaram as ilhas e expulsaram o exército turco: Mando Mavroiennis e Boubulina.
Para quatro mulheres, havia um homem só. E o tarado do Onassis ainda foi buscar uma em Washington.

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