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Colunista - João Soares Neto (Escreve)

O Diário de Dona Hilma

sexta-feira, 19 de outubro 2018

Os concludentes da pioneira turma de Administração do Ceará tinham uma fixação. Fazer uma viagem de estudos pela Europa. A metade não topou. Os demais, mesmo depois de formados, amealharam o que puderam, fizeram correspondências para algumas universidades, empresas e órgãos sobre visitas/intercâmbios. Enfim, decidiram viajar no outono, quando as passagens eram mais baratas.

A colega Eloísa Barros Leal queria ir, mas o seu vigilante pai, Amadeu, condicionou a autorização à ida no tal grupo de uma pessoa séria, responsável e vigilante. Foi assim, que dona Maria Hilma Correia Montenegro, viajou como “dama de companhia”. Éramos quase todos muito jovens, exceto os que fizeram a faculdade para obter reclassificação em seus empregos públicos. Deu-se, então, a entronização da gentil professora de História que, ao longo da viagem, soube ser mãe de meu colega de Direito, na UFC, Seridião Correia Montenegro. Ela era irmã de José Figueiredo Correia, cordial amigo do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira.

Dona Hilma passou a ser a chefe informal de todos nós. Estávamos sedentos para o embarque, através da TAP, via Recife, em 24 de setembro de 1965. As passagens econômicas eram apenas de ida e volta. Em Portugal, ávidos, fizemos o circuito natural a todo turista letrado. Museus, monumentos, casas de fado, restaurantes, universidades e, especialmente, visita programada e guiada no Instituto Calouste Gulbekian, fundado em 1961, cheirando a novo, em seus amplos jardins e centrado na Ciência e Tecnologia, já referência àquele tempo. Foi uma oportunidade rica e incrível. Quando da visita à Gulbekian descobri que dona Hilma tomava nota de tudo. Lembre-se que o Marechal Humberto Castelo Branco era o primeiro governante brasileiro, pós 1964. Seria uma agente infiltrada? Ouvi comentários e calei. Portugal ainda era gerido pelo ditador Antônio de Oliveira Salazar, autointitulado presidente do Conselho de Ministros. Murmúrios.

Enfim, havíamos de seguir em frente. Depois de muitos contatos e de pechinchar, alugamos um ônibus e nos mandamos em direção à Espanha. Revezamo-nos como navegadores do simpático e exímio motorista, o senhor Manuel. “Pois. Pois”. Vimos tudo. O e o não permitido à época do também ditador Francisco Franco.
O roteiro era semi-livre, mas tinha rumo. Maravilhados com os encantos de Madri onde não deixamos de ver o Museu do Prado, com Velásquez et caterva, vinhos na Gran Via e, naturalmente, a corrida de touros, em que o herói é o maldito matador do já cansado e flechado animal com “banderillas”.

Fomos a Toledo, cidade histórica, cenário do filme (1961) “El Cid”, estrelado por Charlton Heston e Sophia Loren. O enredo narra uma união de cristãos e mouros no século XI. Na volta para Madri, dona Hilma escrevia. Depois, vimos Barcelona e as obras famosas de Gaudí, inclusive, a bela e inacabada igreja. Ainda não acontecera a Olimpíada que mudou a face das Ramblas e deu status de metrópole e briguenta a essa capital dos Bascos. As anotações continuavam.

Tínhamos um compromisso profissional marcado na pequena e bonita cidade de Ivrea (hoje patrimônio tombado pela Unesco), no Piemonte, Itália, sede do então famoso grupo Olivetti, da família do mesmo nome. Fomos recebidos ´pelos diretores que nos trataram como aprendizes e era isso mesmo que queríamos saber. Concluído o estudo, seguimos pela Auto Estrada do Sol, em direção a Roma. Eu vira a dona Hilma guardando um bloco de anotações, de forma discreta.

Era tempo do Concílio Vaticano II e eu contava com o apoio cordato de dom José Terceiro para visitar as entranhas de tão definitivo conclave a mudar a face da Igreja Católica, abolir a reza das missas em Latim, as batinas e as tonsuras dos padres. A Constituição “Gaudes et Spes” era a mais comentada. O conservador Papa Paulo VI, pela morte de João XXIII, foi quem firmou, junto com cardeais e bispos, os muitos documentos ali gerados.
Lembro-me do espanto da católica praticante, dona Hilma, com as riquezas do Museu do Vaticano. Ali, mais do que em outros lugares, ela escrevia sofregamente. Por pedido de D. José Terceiro, levamos de carona, até Paris, três bispos cearenses. Iriam descansar um pouco da faina do pesado trabalho. Nomes? Todos já faleceram.
Entramos na França, terra dos pais do nosso colega Gerard Boris que ali agregara uma prima à nossa turma. Gerard passou, nesse período a ser o “condottiere”. Não deixamos de ver a Riviera Francesa, Cannes e Nice, mas o nosso objetivo era a École Nationale d’Administration, em Paris, berço da moderna gestão europeia, bem principiada, como sabíamos, por Henri Fayol. Na ENA, éramos esperados. Fomos bem recebidos e nos mostraram por que alguns dos ministros da área econômica e financeira do então presidente, Charles De Gaulle eram dela originários.
Ficamos felizes com tudo o que os professores falaram, mostraram e avivaram os nossos básicos conhecimentos e, em especial, com a austeridade dessa grande instituição (Detalhe, pós dona Hilma: François Macron é egresso da ENA).
Pela primeira vez, optamos por um bom lugar para dormir. Conseguidos os abatimentos para o grupo, lá estávamos nós hospedados no Hotel de La Republique, na Praça da República, metrô ao lado. Para contentamento dos homens, a seleção soviética de futebol estava hospedada nesse mesmo hotel. O destaque do time era o goleiro Yashim, conhecido como “Aranha Negra”, por usar uniforme negro. Aconteceu um pseudodiálogo de um colega nosso. Ele se dirigiu a Yashim da seguinte forma: “Mim, brasileiro, Pelé. Tu, Yashim, russo”. Todos riram, dona Hilma, de soslaio, anotava.

Mais não conto, embora tenhamos ido até a Suíça e voltado para Lisboa, pois dona Hilma, certa noite, começou a chorar. Todos se achegaram para saber o que de grave acontecera. Ela, aos prantos, disse que havia perdido o seu já grosso diário. O mistério estava desfeito. Consolamos Dona Hilma com jantar em um bistrô. Fora a grande perda da sua viagem.
Esse meu longo descrever, falho e, certamente diverso do que dona Hilma historiara com aprumo e ciência, é uma forma simples de homenageá-la. Seu filho primogênito, Seridião Correia Montenegro, meu colega de Direito e na Academia Fortalezense de Letras, da qual será o próximo presidente, resolveu lançar livro em que ele, parentes, colegas e amigos de dona Hilma depõem sobre a sua vida de professora, destacada funcionária pública, personalidade, olhar firme, delicadeza primorosa e bom diálogo.
Não foi à toa que ela pertenceu e até presidiu instituições culturais. A única prova que tenho sobre o narrado é uma foto em que ela, olhar tristonho, está vestida de preto. Eu a repassei ao Seridião. Foi batida no jantar “em desagravo” à perda do seu Diário do qual, infelizmente, nunca conheceremos o conteúdo. Uma pena.

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