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Colunista - João Soares Neto (Escreve)

Vã filosofia e o doce país

sexta-feira, 28 de dezembro 2018

Vez em quando me descubro ignorante. Sem ciência, conhecimento parvo e mal distribuído nos meus escritos. Não precisa ninguém falar mal de mim. Eu mesmo cuido disso. Ao estudar filosofia pura, na matéria Introdução à Ciência do Direito, dei-me bem, mas tudo chegava de roldão em uma mente jovem ocupada por outros interesses. Agora, décadas passadas, deparo-me com um ensaio didático e profundo de César Benjamim sobre Edmund Husserl. Explico.
César Benjamin é um cientista político, editor e jornalista, nascido uma década depois da minha. Filiou-se e desligou-se do PT e do PSOL. Isso mostra o seu engajamento e a capacidade de não aceitar no não mais acreditado, na visão dele. Nesse ensaio “A essência das coisas” ele analisa a posição filosófica de Edmund Husserl, amadurecida no princípio do século 20. Ele pretendeu uma forma nova de ver a filosofia: a fenomenologia “buscou um conhecimento cuja validade não dependesse da psicologia, dos fatos empíricos, da espécie humana e nem mesmo da existência do mundo”.
Vejam onde estou me metendo. Segundo Benjamin: “Husserl viu que para ‘alcançar as coisas’ precisamos partir de uma intuição na qual elas se revelem diretamente à consciência, sem distorções. Tal intuição precisa cumprir duas condições: a) ser independente de um ‘eu’ particular; b) não se ater a fatos contingentes, mas buscar verdades universais, revelando suas conexões necessárias”. Ora, amigo leitor, se tiver alguma dúvida, releia este parágrafo. Não parece simples entender, mesmo com o didatismo de Benjamin.
Falo agora um pouco de Husserl, matemático e filósofo alemão de origem judaica, falecido em 1938, um pouco antes do início da Segunda Guerra mundial deflagrada por Adolf Hitler. Imagine, só de passagem, se vencida pelo nazismo, teria mudado a face da segunda metade do último século. Foi preciso meio mundo se aliar para derrotá-lo, depois de seis anos de desvarios e estragos por toda a Europa, África e Japão. Como o mundo seria hoje se tivesse acontecido o contrário?
Aprendi pouco em filosofia. Aliás, quase não sei nada. Mas ficou sedimentada a ideia de não existir verdade absoluta. Na Teoria do Conhecimento, que me foi ensinada pelo sábio professor Eribaldo Costa, tudo era relativo. Era a Ontognosiologia. Para Husserl, a fenomenologia pregava a verdade absoluta. Rendo-me a Benjamin quando, analisando o livro “A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia”, em tradução de Diogo Falcão Férrer, cita o próprio autor, Husserl: “A exclusividade com que na segunda metade do Século 19, a visão de mundo do homem moderno se deixou determinar pelas ciências positivas e com que se deixou deslumbrar pela ‘prosperidade’ que decorria daí significou o afastamento dos problemas decisivos para a humanidade. Meras ciências de fato criam meros homens de fato”.
Esses “homens de fato” são os doutrinadores de hoje em suas pregações, convicções e ações políticas, sem sequer uma verdade relativa. São também os messiânicos criadores de versões novas do cristianismo pentecostal, do fundamentalismo islâmico e empresários megalomaníacos do mundo disputando o estrelato e o “ranking” em revistas, blogs e sites. Eles os expõem como chefes de conglomerados em onde tudo é possível. Até algum pode ser honesto.
A leitura deste texto não é uma linha azul, mas é uma reflexão, simples ou simplória, feita no começo no “ano épico” de 2014 para o Brasil. Nele poderemos – ou não – ganhar uma Copa do Mundo de Futebol e decidir quem escolheremos para presidir este país localizado do lado norte do mundo ocidental e mais longe ainda do oriental. Este país a viver, sem astrolábio, bússola ou google em busca do seu norte magnético ou do seu significado e significante. Um país a não competir no mundo das letras e das ciências.
Contenta-se em exportar mercadorias e uns poucos bens manufaturados e se vê, até hoje, órfão de uma digna premiação internacional tal como, por exemplo, o Nobel. Olhamos para a vizinhança da América do Sul e vemos premiados. Por que será assim? Será por não sermos verdadeiros e nos fingimos alegres em meio a uma espécie de guerrilha urbana a nos acossar todos os dias com a face mais cruel da juventude sem rumo? Entretanto, fiquemos alegres, Fernanda Montenegro, a Fernandona, 84, ganhou um “Emmy” por sua interpretação no telefilme “Doce de mãe”. Doce país.

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